terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Portugal, um ponto de partida

Dina Moura tem 29 anos e é licenciada em Psicologia do Desporto (curso que já não existe) e concluiu um Mestrado em Psicologia da Educação na UTAD. Dina é mais uma jovem portuguesa qualificada pertencente à nova geração de emigrantes que parte todos os dias para o estrangeiro em busca de uma vida que não lhes negue oportunidades. Dois anos depois de ter concluído os seus estudos, achou que já lhe tinham sido negadas demasiadas oportunidades. E foi então que tomou a grande decisão da sua vida: emigrar.

Dina Moura

Para que país emigraste?
Emigrei para a Suíça no dia 21 de fevereiro de 2013.

Que razões te levaram a emigrar? Emigraste sozinha?
Emigrei porque me sentia completamente em crise. Além do meu país estar em crise, eu própria me sentia em crise. Não via qualquer perspetiva de futuro em Portugal. E já não me sentia lá bem. A minha vontade era mesmo sair. Emigrei sozinha e vim para casa dos padrinhos do meu irmão que não são família mas que me são muito chegados.

O que sentiste no momento da partida?
Quando parti sinceramente só me apetecia mesmo isso, partir. E senti que era essa a decisão a tomar. Estava completamente determinada.

Como foi a adaptação à tua vida na Suíça?
Adorei a Suíça desde o primeiro minuto. A adaptação não poderia ter sido melhor. Senti-me em casa desde o primeiro momento. Mas isso talvez se deva ao facto de ter nascido aqui nesta mesma cidade onde resido atualmente, Lucerna, e de ter vivido aqui durante sete anos. Tenho muitas recordações. Foi um regresso às origens.

Gostas dos costumes e tradições suíços?
Gosto muito dos costumes e tradições suíças. Embora neste aspeto goste mais dos de Portugal.


Dina Moura passeando em Lucerna no primeiro nevão deste outono de 2014.


Quando chegaste, em que área começaste a trabalhar?
Assim que aqui cheguei o meu objetivo era apenas um: arranjar qualquer trabalho, sentir-me digna, e ganhar dinheiro para poder fazer o que quisesse. Comecei a servir num restaurante aos fins-de-semana, aos ábados à noite e domingos à tarde. Passadas duas semanas comecei nas limpezas. Antes disto fui sozinha procurar trabalho em hotéis sem conhecer nada da cidade. Consegui fazer uma prova num deles mas depois decidi escolher as limpezas. O trabalho de hotel aqui na Suíça mais me pareceu uma escravidão. É que isto aqui não é de todo um mar de rosas.

E em que é que trabalhas atualmente?
Neste momento continuo na mesma firma de limpezas. Estive um ano também no restaurante. O que significa que trabalhava sete dias por semana. Nas limpezas trabalho cerca de 40 horas semanais, por vezes mais. O horário normal é das seis da manha às 15h com uma hora de pausa para o almoço. Tenho também umas horas de limpeza numa senhora particular e por vezes faço mais horas quando alguém tem férias. Na firma pagam a cerca de 15 francos limpos à hora. Na privada pagam-me 25 francos limpos. O trabalho na firma rende-me uma média de 2700 francos limpos.

Para além disso, tens mais atividades? O que costumas fazer nos teus tempos livres aí?
Nos tempos livres ando muito de bicicleta, estou inscrita num ginásio, passeio muito nas montanhas, jogo ping pong, e brevemente vou jogar ténis. Uma vez por semana tenho aulas privadas de alemão. 

De que é que sentes mais falta?
Sinceramente apenas sinto falta da minha família. E do sol e da comida.

Sentes-te desiludida com "o teu Portugal"?
Portugal é uma desilusão. Vivi muitos bons momentos mas como se quer viver e ser feliz num país completamente corrupto e destruído? Não dá. Gosto de justiça. Na Suíça a justiça funciona. Tudo funciona.

Vês algum futuro em Portugal para os jovens desta geração?
O único futuro que vejo em Portugal para os jovens é unicamente ou para quem tem cunhas ou para quem tem dinheiro ou negócios de família.

O que achas que devia mudar? O que sentes que está mal?
Esta é a pergunta mais difícil. O sistema político é uma total catástrofe. Do que mais se ouve falar é que este ou aquele foi acusado disto ou aquilo. Por isso desliguei-me das notícias portuguesas. Cansei-me de ouvir falar dos deputados, dos ministros, do Presidente da República. Perdi a paciência. Os problemas de Portugal estão enraizados. Cortar estas raízes de erros sucessivos vai demorar uns bons anos. Parece que tudo está a andar para trás e a afundar-se. Sistema de saúde, educativo, económico, bancário e por aí em diante.

Faz uma breve comparação entre Portugal e a Suíça, nos bons e nos maus aspetos.
Portugal tem alegria, tem cor, tem mar, tem sol, tem boa gastronomia, tem inovação e investigação de alta qualidade. Mas tem falta de energia, tem as pessoas erradas à frente do país, e tem muitas pessoas de nariz empinado. O desemprego era inevitável num país onde se criaram meninos especiais mas que o mercado não conseguiria absorver. E então esses meninos especiais ficam no desemprego a pensar que são especiais só porque tem um diploma universitário na mão. Não. Ninguém é especial porque estudou. A suíça tem a natureza, tem justiça, tem ordem, tem organização. Depois destas qualidades a felicidade vem por acréscimo. Por outro lado a rigidez suíça parece demasiada. O clima não é dos melhores. E a gastronomia quase inexistente.

Quando pretendes regressar? Achas que a tua vida vai estar na Suíça nos próximos anos?
Só pretendo regressar quando me reformar. Estou bem aqui. Depois de poder fazer uma vida tranquila aqui porquê querer voltar a Portugal onde só tinha preocupações? Não. Emigrar para mim foi perfeito e depois de um ano e meio sinto-me completamente integrada e feliz.

Francisco Lopes

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