terça-feira, 24 de novembro de 2015

Trabalhar com os outros, pelos outros



 

 Maria João Semedo, tem 47 anos, e trabalha nos serviços gerais, do Hospital Distrital da Figueira da Foz. Nos seus 24 anos de serviço passou pelas mais diversas unidades hospitalares: medicina, hospital dia/oncologia, imagiologia, e, atualmente, serviços gerais. Fala-nos, hoje, da sua experiência profissional e da sua relação com os seus doentes ao longo da sua carreira.





Após ter trabalhado em tantas unidades hospitalares, em qual delas teve mais contacto com os doentes e como é que se esse contacto é estabelecido?
- Tanto na medicina, como no hospital dia, e na imagiologia, tive um contacto mais direto com os doentes, apesar de serem contactos totalmente diferentes. Na medicina são doentes de faixas etárias muito elevadas, onde todos os cuidados são extremamente necessários, tais como a higiene, a alimentação, a mobilização, etc. Já no hospital dia/oncologia, o contacto é de uma forma direta, com uma carga emocional muito elevada. Na imagiologia é um contacto mais indireto, em que apenas se ajuda a preparar o doente para o exame e a tranquilizá-lo para o mesmo.
Quanto ao estabelecimento do contacto com o doente, também este é distinto nas três unidades. Enquanto que na medicina o contacto é quase imposto, no hospital dia tem de haver uma maior abertura por parte do doente. Na imagiologia, o contacto apesar de também ser importante, é apenas momentâneo.

Não sendo médica, nem enfermeira, como é que o doente olha para si?
- Normalmente, olham para nós, auxiliares, como alguém com quem podem desabafar e até pedir ajuda. Vêem-nos, talvez, como um elemento menos técnico.

Sendo a medicina um dos sítios mais exigentes para trabalhar, como é que lidava com isso?
- Foi o sítio que mais gostei de trabalhar. Era o sítio onde as pessoas mais precisam de nós, talvez por estarem no fim de vida, e necessitarem de alguém que lhes dê atenção e conforto. A nível pessoal foi o sítio que mais me deu prazer trabalhar.

É fácil manter um espírito alegre, num local onde emana, grande parte das vezes, tristeza?
- Esse é o desafio. Manter a boa disposição, a harmonia e a esperança, num sítio onde já tudo isso foi perdido.

Ao trabalhar num hospital, sentia mais vezes que estava a ajudar ou que era impotente, perante os casos mais complicados?
- Não, é sempre um sentimento de ajuda, nem que seja no conforto, no caso da medicina. Quando são situações complicadas, em que nós profissionais, sabemos que a pessoa só vai durar mais umas horas ou aquele dia, é a nossa missão torná-lo o mais alegre, confortável e com o maior ânimo possível. Só assim somos bons profissionais. 

Como é que encarou a transição de um serviço que exigia de si bastante a nível pessoal, para um serviço mais administrativo?
- Teve dois interesses. A nível pessoal porque nestes serviços tinha de trabalhar por turnos, e queria ficar com os meus filhos, para poder acompanhá-los mais no dia a dia. A nível profissional, foi a carga emocional que a profissão me exigia estava a começar a afetar a minha vida pessoal, senti que me tinha de afastar.

Em termos de realização pessoal, qual lhe agrada mais, o seu trabalho no início da carreira ou atualmente?
- É um pau de dois bicos. Gosto imenso do que faço atualmente, no entanto, continuo o gostar bastante do contacto pessoal com os doentes.

Acha importante que toda e qualquer pessoa tenha o mesmo contacto com os doentes que a Maria João teve? Como, por exemplo, os serviços de voluntariando.
- Acho de extrema importância, para se aprender a valorizar a nossa saúde. E acho que as escolas deviam fazer mais parcerias com os hospitais, por uma questão de sensibilização e cuidado com a nossa saúde, que é das coisas mais preciosas que temos, e muitas vezes damos como garantida.

Qual é a sensação de reencontrar os seus doentes na rua, já bem e com saúde?
- Geralmente, é sempre um momento de boa disposição e uma forma de reconhecimento pelo nosso trabalho. Costumam dizer que estão bem e perguntam por nós, demonstrando uma igual preocupação connosco e com o nosso bem estar. É um sentimento recíproco de alegria. 

Acha que os trabalhadores na área da saúde deviam ser mais bem pagos, pelos seus esforços físicos e emocionais, ou não há preço que pague o devolver a saúde e o sorriso a alguém?
- Devíamos ser mais bem pagos, mas não há dinheiro que pague a saúde.

Alguma vez teve uma situação caricata ou alguém a marcou de uma forma especial?
- Situações caricatas tive mais que muitas. Uma, há muitos anos, no serviço de medicina, uma senhora precisava de fazer xixi para ir para análise, e a enfermeira disse-lhe “Faça aqui um xixizinho para dentro do copo”, deixou-a na casa de banho, e foi à vida dela. Entretanto, a senhora manteve-se na casa de banho e não saía. Estranhei a demora, fui ter com ela, e disse-lhe “Então já fez o xixi?”, e ela vira-se para mim e diz-me assim “Ah nina, fazer xixi é cagar ou mijar”. Até ao dia de hoje esta história está na minha memória, e ainda me faz rir.

Carolina Mateus
Grupo 10

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