terça-feira, 10 de novembro de 2015

Viver a 2300km das suas origens


Jacinto Soares aceitou enquanto cidadão português, mas emigrado há três anos, falar da experiência do que é viver no país alemão. Tem 23 anos, vive agora, numa cidade localizada a 50 km a sul de Munique, mais precisamente em Bad tolz. Trabalhou inicialmente num parque aquático, que entretanto fechou e atualmente e provisoriamente numa empresa de limpezas. Não se trata de mais um caso de um licenciado que teve devido às circunstâncias económicas e financeiras que optar por sair do país. Mas sim, de um caso de um jovem que se deixou aliciar pela experiência de mudar o rumo da sua vida, tudo em prole da sua satisfação, concretização pessoal e profissional.


 
Jacinto Soares num dos alpes bárbaros, Brauneck Lenggries Bayern




Quais foram os motivos que te levaram a sair do teu país de origem?

Acho que foi um motivo superior. Muito baseado na minha força de vontade, porque sem esse fator, jamais poderás mudar a tua vida. E essa minha força de vontade teve origem principalmente, num fator emocional, a busca pelo equilíbrio. E quando falo em equilíbrio refiro-me à vontade que tinha de perceber até que ponto a minha vida podia melhorar, nomeadamente na vertente profissional. Sendo que era parte deficitária na minha vida, até porque o meu anterior trabalho nada correspondia à minha satisfação pessoal e à minha motivação.


Porque é que escolheste a Alemanha como país para embarcares na nova aventura?

Uma oportunidade, apresentada por um amigo de infância, ele embarcou nesta aventura primeiro, e quando surgiu uma brecha, contactou-me e como eu me encontrava insatisfeito no meu trabalho, aproveitei aquele momento para mudar, e buscar algo que aumentasse as minhas expectativas no futuro.


Chegaste a um país novo, tinhas vindo de uma aldeia pacata do interior do país. Como é que foi a tua fase de adaptação a um país distinto?

A adaptação depende sobretudo, do quanto estás recetivo a uma experiência completamente distinta, até aquelas que tinha vivido durante os meus 20 anos.
A verdade, é que foi lenta, mas satisfatória…isto num plano gradual, como se o horizonte se fosse expandido à medida que o tempo ia passando. E claro foram emergindo, no meio do desconhecido, sentimentos de aceitação, comprometimento com a experiência e a tal satisfação pessoal, embora com alguns altos e baixos. Mas se também não fores ao encontro da tua satisfação pessoal e não te comprometeres com os teus objetivos de vida, será decerto muito difícil, aceitares toda a mudança.


Sentiste a diferenciação cultural?

Culturalmente falando, não existe um grande impacto. A sociedade têm hábitos semelhantes aos portugueses e a cidade onde resido além de calma, é muito acolhedora e, é por isso, fácil chamá-la de casa. Embora ainda pese sempre nas nossas costas outra casa e nenhuma outra ocupa o seu lugar, porque foi o sítio onde cresceste e abriste os olhos para a vida, vai ser sempre o lugar mais gostoso de voltar, tenhas tu 20 anos ou 70, e não passa um dia em que não feche os olhos e me venham as memórias à cabeça. Seguidas pela vontade de dar um pulo até lá, mas infelizmente não se percorrem 2300 km num simples pulo.


Disseste que a sociedade tem hábitos semelhantes. Tais como?

É uma sociedade, com regras estabelecidas, partilhamos da mesma religião, dos mesmos ideais de liberdade, respeitando o próximo, uma sociedade que valoriza a comunhão familiar e de amizade.
Fora a língua que em nada se assemelha, ou a arquitetura que é bastante diferente do que estou habituado, aqui as casas regem-se por um estilo mais rústico, recorrendo muito ao uso de madeiras por exemplo, mas que foi um impacto positivo, à minha chegada.
Acho que a partir do momento em que a língua já não se apresenta tão estranha, e tu sentes que afinal, mesmo tratando-se de um país diferente do teu, tens ali um lugar e tu és respeitado, a partir daí a sociedade, se algum dia foi um problema, vai deixar de ser e vais sentir as barreiras a ceder, uma por uma.


Ao fim destes três anos, se retrocederes no tempo e fizeres um processo de reflexão, qual é a expetativa de um rapaz de 20 anos, imbuído de algumas ilusões antes de partir das suas origens e um rapaz que já passou pelo impacto da chegada?

As expetativas da minha parte nunca serão desmedidas, porque a minha vida rege-se pela vontade em equilibrar as coisas e na realidade penso que neste momento estão equilibradas. Há sempre um ou outro ponto negativo, mas a expetativa será em todo o momento, equilibrar os pontos que constituem a minha realidade.


Falas muito do encontro ou da busca do tal equilíbrio, o que é para ti o tal equilíbrio que procuras a nível profissional, por exemplo?

O equilíbrio baseia-se na minha ideia, de encontrar a satisfação pessoal, englobando toda a minha vida, que seja capaz em momentos de confrontação com problemas. E que eu possa resolver as coisas de forma tranquila, olhando sempre os aspetos positivos da minha vida, e buscar forças para quebrar qualquer barreira que surja pelo caminho.


Enquanto emigrante, sentes alguma frustração quando olhas para o estado do teu país?

Acho que a frustração atinge a grande maioria dos Portugueses, residentes ou emigrados, porque todos nós sentimos que temos potencial para mais, sabemos que a dimensão do nosso país nunca foi uma barreira que não pudéssemos quebrar, a história está do nosso lado, a quantidade de pessoas que visitam o nosso país e se rendem, é soberba.
O estado do nosso país é lamentável, em várias aspetos, mas isso parte de um princípio, creio eu, não estou por dentro da política, mas por vezes sinto que o poder, do primeiro-ministro é como se tratasse de um brinquedo que ofereces a uma criança, mas tu é que decides quando e como ela brinca com ele, porque de outra maneira, duvido que não exista um português capaz de nos colocar numa rota, certa e favorável não a centenas, mas sim aos milhões que nós somos.


Em algum momento te arrependeste da tua escolha?

Muito sucintamente, não. Não há razões para isso, a escolha foi feita, e depois de tudo o que vivi, positivo ou negativo, sou alguém diferente do que era, mas para melhor e isso deve-se muito há experiência que fui absorvendo. 


Do que é que mais sentes falta de Portugal?

Sinto falta de tudo, da família, do convívio com os amigos, os lugares onde cresci e o à vontade como me deslocava para onde fosse. Quando chegas a um país diferente, encontras uma barreira base, que é a língua, depois sentes falta, do contacto diário, e tudo o que vives quando tens por perto uma rede grande de conhecidos.
Na Alemanha, conheci muita gente até agora, mas a maioria partiu, ou ficou por aqui pouco tempo, e por vezes há uma variação, entre alturas em que encontras pessoas com quem partilhar momentos de descontração, enquanto em diversos momentos tens de te sujeitar a descontrair sozinho.


Achas que se tivesses um curso superior ou até mesmo completado o 12ºano as oportunidades teriam sido outras no teu país?

As oportunidades existem, mas também é preciso criá-las, mas sinceramente não penso muito nisso, agarrei esta oportunidade, em algum momento se surgir uma que me faça regressar, voltarei ao meu país, com a certeza que não esquecerei a Alemanha, nem aquilo que ele me deu ao longo destes anos.


Objetivos para o futuro?

No futuro essencialmente prolongar o equilíbrio que encontrei, para tal usarei as armas que tenho, o maior poder será a força de vontade, que me levou por transformar na maior parte do tempo, a saudade num sentimento de aceitação constante.
Bom, mas o futuro é já daqui a 5 minutos e neste momento não te posso assegurar a meses de distância, mas sei que daqui a 5 minutos irei continuar a sentir-me orgulhoso de ter chegado até aqui, aquela que não é assim tão recente realidade, mesmo que daqui a 5 minutos seja atacado pela saudade, pela vontade de voltar às minhas origens. No entanto, tenho em conta o sortudo que sou, porque somando as coisas, neste momento tenho dois lugares no mundo a que chamar de casa e onde me sinto bem, enquanto isso outros tantos pelo mundo, não dispõem de único local para esse efeito.


Cátia Soares




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