sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pedro e Inês: uma história, mais que intemporal, atemporal

O livro de Rosa Lobato de Faria “A Trança de Inês” terá brevemente a sua versão cinematográfica. O responsável é António Ferreira, que irá rodar o filme no próximo mês. O realizador de Coimbra – onde decorrerão as filmagens - considera a história de Pedro e Inês mais que intemporal, atemporal, e admite querer fazer do cinema “um espaço de sonho, de reflexão”.
António Ferreira
Porquê fazer um filme a partir do livro de Rosa Lobato de Faria?
Uma prima minha, Glória Ferreira, mostrou-me A Trança de Inês dizendo que achava que dava um filme. Quando li o livro fiquei surpreso com o tratamento que a Rosa dava a um tema tão conhecido, e até gasto, dos portugueses. Essa frescura seduziu-me e decidi tentar adaptar o livro ao cinema. A não linearidade da narrativa também me atraiu muito, pois gosto de trabalhar o som e a imagem nos meus filmes de forma subjectiva e a estrutura do livro da Rosa era bastante fragmentada, o tom era onírico, as três narrativas entrançadas progrediam organicamente e isso, julgo eu, tem tudo a ver com o cinema que tenho feito, que apesar de ser narrativo na sua essência, explora as possibilidades subjectivas que o cinema oferece como o som, a imagem, montagem. Acabei por trabalhar juntamente com a Glória nas primeiras versões do argumento e mais sozinho nos últimos anos.

A história, no livro, passa-se em vários tempos. Que abordagem cinematográfica vai dar à obra?
A ideia é contar a história original de Pedro e Inês mas dispersa ao longo de três tempos totalmente diferentes. O original na idade média, um na atualidade  numa grande cidade e outro, naquilo a que chamamos de futuro (porque ainda não aconteceu), onde sempre temos um Pedro e uma Inês que se encontram e se apaixonam. Na verdade, são três histórias diferentes mas que ressoam uma nas outras, completando-se, onde um acontecimento na idade média parece reverberar noutro mil anos mais tarde, acabando as três histórias por se entrelaçar formando uma única linha narrativa, atemporal, num tempo que não é sequencial mas antes paralelo, simultâneo.
A história é contada do ponto de vista de Pedro, um homem internado num hospital psiquiátrico por ter viajado de carro vários dias com a sua namorada Inês, morta no banco do passageiro. Este homem, Pedro, recorda simultaneamente e de forma indistinta as três vidas que viveu. Esta é aliás a estrutura e abordagem que está no romance da Rosa Lobato de Faria. A Rosa usou do poder literário da sua palavra para contar esta história. Eu utilizarei os recursos que o cinema me oferece - a palavra, a imagem, o som, a montagem…

A história de Pedro e Inês é a versão portuguesa do clássico "Romeu e Julieta"? 
A história de Pedro e Inês é maior história de amor do imaginário português, de longe mais intensa e violenta do que Romeu e Julieta. Claro que uma boa parte daquilo que hoje tomamos por verdade faz de facto parte do mito, mas é o mito que me interessa, o que sobreviveu no imaginário coletivo, no canto dos poetas e dos romancistas, a paixão, o sacrifício, a loucura do homem que viu a sua amada ser levada. Essa é por excelência a matéria prima deste filme.

Sendo Pedro e Inês uma história ligada a Coimbra, faz mais sentido que seja um realizador conimbricense a transformá-la, no cinema?
Eu ser de Coimbra é uma coincidência e não acho isso propriamente uma vantagem. Mas tendo eu crescido em Santa Clara, com a janela do quarto virada para a Quinta das Lágrimas do outro lado da rua, faz com que obviamente tenha uma ligação com o tema. Mas qualquer outra pessoa pode adaptar esta história ao cinema, como aliás já foi feito e como certamente será mais vezes. É uma história com contornos escabrosos, que lida com sentimentos humanos bastante elementares (o amor, a perda, o ódio). A matéria prima desta história é intemporal.

Este filme está pensado há cerca de uma década. O que adia assim um filme? (Burocracias, financiamento...)
Basicamente, o financiamento. Uma vez havendo viabilidade financeira as coisas até que são rápidas, até porque têm que ser, pois tempo é dinheiro. O cinema tem este defeito de ser uma arte cara, que envolve muita gente e meios técnicos complexos. Financiar um filme não é fácil em lugar nenhum do mundo.

A necessidade - se é que é uma necessidade - de criar parcerias, inclusivé com outros países, surge também por questões financeiras?
Maioritariamente por motivos de financiamento. Existem diversas possibilidades de complementar o financiamento de um filme ao fazer co-produção com outros países, que podem aportar mais dinheiro para o teu projeto. Claro que isto implica a participação de meios, técnicos e artistas desses países parceiros e é por vezes complicado de gerir. Mas ter uma co-produção é sempre positivo, pois para além do factor financiamento, é uma forma de abrir mercados de distribuição fora de portas. A Trança de Inês é uma co-produção com a França e o Brasil.
O realizador e a esposa, Tathiani Sacilotto, nas gravações de
 Posfácio nas Confecções Canhão
É possível, em Portugal, viver apenas do cinema?
Eu vivo só do cinema. Escrevo e realizo os meus projetos que são produzidos pela minha esposa, Tathiani Sacilotto. Também co-produzimos projetos de outros realizadores. Só fazemos isto.

Antes de morrer, Rosa Lobato de Faria teve conhecimento deste projeto. Como foi a reação da autora? 
Tudo foi conversado com a autora que inclusivamente chegou a ler uma primeira versão do argumento. Ela sempre foi muito entusiasta da adaptação ao cinema da sua obra, colaborou e apoiou. Nunca me pediu absolutamente nada e sempre me confiou na íntegra o critério e rumo a seguir na adaptação. Do pouco que conheci da Rosa, era uma pessoa afável e sorridente. Foi tudo muito suave.
António Ferreira com Rosa Lobato de Faria
Este não é o primeiro filme que realiza nesta cidade. Coimbra é uma cidade cinematográfica?
Com certeza que é. E ao redor de Coimbra temos muitos mundos diferentes. Sou daqui, cresci aqui e conheço muito bem os cantos à casa. É-me natural filmar em Coimbra e sinto-me em casa. Por vezes não encontro aqui coisas específicas e vou para outro lado, como aconteceu no Esquece Tudo o que te Disse que filmei a maior parte em Ofir no norte de Portugal, mas ainda estive quase uma semana na Figueira-da-Foz, ao lado de casa, portanto. O Respirar Debaixo d’Água, por exemplo, não poderia ser filmado noutro lugar que não fosse Coimbra, porque aquele filme é sobre uma certa forma de estar num determinado período em Coimbra. Eu cresci um pouco daquela maneira.

Os atores ainda não foram revelados, mas já foi dito que serão caras conhecidas. Já trabalhou com António Capelo, Custódia Gallego, José Raposo... Ter atores mais conhecidos aumenta a audiência? 
No caso português, pode aumentar ou não e os números são bem claros nisto. Não faltam casos com a fórmula de sucesso que pouca gente foi ver, como filmes com atores desconhecidos que se saíram bastante bem na bilheteira. Eu acredito profundamente que o que produz sucessos de bilheteira é essencialmente um bom filme, e o que quero dizer com bom filme é um filme que a pessoa que comprou o bilhete com uma determinada expectativa, sinta-se recompensada, emocionada, entretida ou perturbada, mas que sinta que a sua expectativa no mínimo se cumpriu. Agora claro que caras conhecidas podem ajudar muito a vender um filme, podemos até dizer que mega-sucessos não se fazem sem estrelas, mas é preciso que o filme respeite o espectador e o surpreenda acima de tudo. Ninguém vai para uma sala às escuras, dispensando dinheiro e duas horas do seu precioso tempo para “ouver” o que já sabe e antecipar à distância o que vai acontecer a seguir. O cinema é um espaço de sonho, de reflexão, queremos estar por duas horas fora do mundo lá fora e ser levados sem dar por ela, de preferência para bem longe daqui. É pelo menos o que eu procuro no cinema.
Mas se olhares para os números portugueses, constatarás que a realidade é bem complexa. Costumo dizer que se houvesse fórmulas de sucesso o Belmiro de Azevedo seria cineasta. Mas não é. 

Qual é a sua posição, enquanto realizador, perante o pré conceito de que "o livro é sempre melhor que o filme"?
Não faz sentido fazer a comparação e isso nem é verdade, há filmes melhores que os livros. O cinema e a literatura são meios de expressão totalmente diferentes, com ferramentas narrativas muito diferentes. O que pode acontecer é que haja filmes que não souberam transpor do meio literário para o cinematográfico, produzindo uma obra de intensidade inferior à original, acontece muitas vezes, pois a adaptação de um livro ao cinema é um processo melindroso e cheio de armadilhas. A projeção da narrativa do livro acontece no interior da nossa cabeça, é totalmente subjectiva, somos nós que imaginamos o rosto do protagonista por exemplo, por mais que o autor o descreva. De alguma forma o cinema é mais concreto, tem cara, tem roupa, vive numa casa grande ou pequena, está defronte dos nossos olhos, tem um timbre de voz. Mas as emoções que tanto o livro como o filme poderão despertar em nós são bastante semelhantes, são da mesma natureza, fazem-nos sentir tristes ou ter vontade de rir, podem repugnar-nos ou fazer-nos sentir desejo. Mas os mecanismos para despertar estas emoções são muito diferentes na literatura e no cinema.

Em 2000, teve uma curta-metragem selecionada no Festival de Cannes. Entre outras nomeações e prémios que arrecadou. "A Trança de Inês" é um filme para mais nomeações e prémios? 
Não faço ideia. O futuro não me pertence. Limito-me a fazer o filme que imagino com toda a energia e saber que tenho. Claro que desejo a ressonância, o eco do destinatário dos filmes que faço que é o público, os amantes de cinema, aqueles que gostam de se sentar numa sala escura e deixar-se levar. Eu sou também uma dessas pessoas. 
(fotos cedidas por António Ferreira) 

Cátia Cardoso 20150136

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