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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pedro e Inês: uma história, mais que intemporal, atemporal

O livro de Rosa Lobato de Faria “A Trança de Inês” terá brevemente a sua versão cinematográfica. O responsável é António Ferreira, que irá rodar o filme no próximo mês. O realizador de Coimbra – onde decorrerão as filmagens - considera a história de Pedro e Inês mais que intemporal, atemporal, e admite querer fazer do cinema “um espaço de sonho, de reflexão”.
António Ferreira
Porquê fazer um filme a partir do livro de Rosa Lobato de Faria?
Uma prima minha, Glória Ferreira, mostrou-me A Trança de Inês dizendo que achava que dava um filme. Quando li o livro fiquei surpreso com o tratamento que a Rosa dava a um tema tão conhecido, e até gasto, dos portugueses. Essa frescura seduziu-me e decidi tentar adaptar o livro ao cinema. A não linearidade da narrativa também me atraiu muito, pois gosto de trabalhar o som e a imagem nos meus filmes de forma subjectiva e a estrutura do livro da Rosa era bastante fragmentada, o tom era onírico, as três narrativas entrançadas progrediam organicamente e isso, julgo eu, tem tudo a ver com o cinema que tenho feito, que apesar de ser narrativo na sua essência, explora as possibilidades subjectivas que o cinema oferece como o som, a imagem, montagem. Acabei por trabalhar juntamente com a Glória nas primeiras versões do argumento e mais sozinho nos últimos anos.

A história, no livro, passa-se em vários tempos. Que abordagem cinematográfica vai dar à obra?
A ideia é contar a história original de Pedro e Inês mas dispersa ao longo de três tempos totalmente diferentes. O original na idade média, um na atualidade  numa grande cidade e outro, naquilo a que chamamos de futuro (porque ainda não aconteceu), onde sempre temos um Pedro e uma Inês que se encontram e se apaixonam. Na verdade, são três histórias diferentes mas que ressoam uma nas outras, completando-se, onde um acontecimento na idade média parece reverberar noutro mil anos mais tarde, acabando as três histórias por se entrelaçar formando uma única linha narrativa, atemporal, num tempo que não é sequencial mas antes paralelo, simultâneo.
A história é contada do ponto de vista de Pedro, um homem internado num hospital psiquiátrico por ter viajado de carro vários dias com a sua namorada Inês, morta no banco do passageiro. Este homem, Pedro, recorda simultaneamente e de forma indistinta as três vidas que viveu. Esta é aliás a estrutura e abordagem que está no romance da Rosa Lobato de Faria. A Rosa usou do poder literário da sua palavra para contar esta história. Eu utilizarei os recursos que o cinema me oferece - a palavra, a imagem, o som, a montagem…

A história de Pedro e Inês é a versão portuguesa do clássico "Romeu e Julieta"? 
A história de Pedro e Inês é maior história de amor do imaginário português, de longe mais intensa e violenta do que Romeu e Julieta. Claro que uma boa parte daquilo que hoje tomamos por verdade faz de facto parte do mito, mas é o mito que me interessa, o que sobreviveu no imaginário coletivo, no canto dos poetas e dos romancistas, a paixão, o sacrifício, a loucura do homem que viu a sua amada ser levada. Essa é por excelência a matéria prima deste filme.

Sendo Pedro e Inês uma história ligada a Coimbra, faz mais sentido que seja um realizador conimbricense a transformá-la, no cinema?
Eu ser de Coimbra é uma coincidência e não acho isso propriamente uma vantagem. Mas tendo eu crescido em Santa Clara, com a janela do quarto virada para a Quinta das Lágrimas do outro lado da rua, faz com que obviamente tenha uma ligação com o tema. Mas qualquer outra pessoa pode adaptar esta história ao cinema, como aliás já foi feito e como certamente será mais vezes. É uma história com contornos escabrosos, que lida com sentimentos humanos bastante elementares (o amor, a perda, o ódio). A matéria prima desta história é intemporal.

Este filme está pensado há cerca de uma década. O que adia assim um filme? (Burocracias, financiamento...)
Basicamente, o financiamento. Uma vez havendo viabilidade financeira as coisas até que são rápidas, até porque têm que ser, pois tempo é dinheiro. O cinema tem este defeito de ser uma arte cara, que envolve muita gente e meios técnicos complexos. Financiar um filme não é fácil em lugar nenhum do mundo.

A necessidade - se é que é uma necessidade - de criar parcerias, inclusivé com outros países, surge também por questões financeiras?
Maioritariamente por motivos de financiamento. Existem diversas possibilidades de complementar o financiamento de um filme ao fazer co-produção com outros países, que podem aportar mais dinheiro para o teu projeto. Claro que isto implica a participação de meios, técnicos e artistas desses países parceiros e é por vezes complicado de gerir. Mas ter uma co-produção é sempre positivo, pois para além do factor financiamento, é uma forma de abrir mercados de distribuição fora de portas. A Trança de Inês é uma co-produção com a França e o Brasil.
O realizador e a esposa, Tathiani Sacilotto, nas gravações de
 Posfácio nas Confecções Canhão
É possível, em Portugal, viver apenas do cinema?
Eu vivo só do cinema. Escrevo e realizo os meus projetos que são produzidos pela minha esposa, Tathiani Sacilotto. Também co-produzimos projetos de outros realizadores. Só fazemos isto.

Antes de morrer, Rosa Lobato de Faria teve conhecimento deste projeto. Como foi a reação da autora? 
Tudo foi conversado com a autora que inclusivamente chegou a ler uma primeira versão do argumento. Ela sempre foi muito entusiasta da adaptação ao cinema da sua obra, colaborou e apoiou. Nunca me pediu absolutamente nada e sempre me confiou na íntegra o critério e rumo a seguir na adaptação. Do pouco que conheci da Rosa, era uma pessoa afável e sorridente. Foi tudo muito suave.
António Ferreira com Rosa Lobato de Faria
Este não é o primeiro filme que realiza nesta cidade. Coimbra é uma cidade cinematográfica?
Com certeza que é. E ao redor de Coimbra temos muitos mundos diferentes. Sou daqui, cresci aqui e conheço muito bem os cantos à casa. É-me natural filmar em Coimbra e sinto-me em casa. Por vezes não encontro aqui coisas específicas e vou para outro lado, como aconteceu no Esquece Tudo o que te Disse que filmei a maior parte em Ofir no norte de Portugal, mas ainda estive quase uma semana na Figueira-da-Foz, ao lado de casa, portanto. O Respirar Debaixo d’Água, por exemplo, não poderia ser filmado noutro lugar que não fosse Coimbra, porque aquele filme é sobre uma certa forma de estar num determinado período em Coimbra. Eu cresci um pouco daquela maneira.

Os atores ainda não foram revelados, mas já foi dito que serão caras conhecidas. Já trabalhou com António Capelo, Custódia Gallego, José Raposo... Ter atores mais conhecidos aumenta a audiência? 
No caso português, pode aumentar ou não e os números são bem claros nisto. Não faltam casos com a fórmula de sucesso que pouca gente foi ver, como filmes com atores desconhecidos que se saíram bastante bem na bilheteira. Eu acredito profundamente que o que produz sucessos de bilheteira é essencialmente um bom filme, e o que quero dizer com bom filme é um filme que a pessoa que comprou o bilhete com uma determinada expectativa, sinta-se recompensada, emocionada, entretida ou perturbada, mas que sinta que a sua expectativa no mínimo se cumpriu. Agora claro que caras conhecidas podem ajudar muito a vender um filme, podemos até dizer que mega-sucessos não se fazem sem estrelas, mas é preciso que o filme respeite o espectador e o surpreenda acima de tudo. Ninguém vai para uma sala às escuras, dispensando dinheiro e duas horas do seu precioso tempo para “ouver” o que já sabe e antecipar à distância o que vai acontecer a seguir. O cinema é um espaço de sonho, de reflexão, queremos estar por duas horas fora do mundo lá fora e ser levados sem dar por ela, de preferência para bem longe daqui. É pelo menos o que eu procuro no cinema.
Mas se olhares para os números portugueses, constatarás que a realidade é bem complexa. Costumo dizer que se houvesse fórmulas de sucesso o Belmiro de Azevedo seria cineasta. Mas não é. 

Qual é a sua posição, enquanto realizador, perante o pré conceito de que "o livro é sempre melhor que o filme"?
Não faz sentido fazer a comparação e isso nem é verdade, há filmes melhores que os livros. O cinema e a literatura são meios de expressão totalmente diferentes, com ferramentas narrativas muito diferentes. O que pode acontecer é que haja filmes que não souberam transpor do meio literário para o cinematográfico, produzindo uma obra de intensidade inferior à original, acontece muitas vezes, pois a adaptação de um livro ao cinema é um processo melindroso e cheio de armadilhas. A projeção da narrativa do livro acontece no interior da nossa cabeça, é totalmente subjectiva, somos nós que imaginamos o rosto do protagonista por exemplo, por mais que o autor o descreva. De alguma forma o cinema é mais concreto, tem cara, tem roupa, vive numa casa grande ou pequena, está defronte dos nossos olhos, tem um timbre de voz. Mas as emoções que tanto o livro como o filme poderão despertar em nós são bastante semelhantes, são da mesma natureza, fazem-nos sentir tristes ou ter vontade de rir, podem repugnar-nos ou fazer-nos sentir desejo. Mas os mecanismos para despertar estas emoções são muito diferentes na literatura e no cinema.

Em 2000, teve uma curta-metragem selecionada no Festival de Cannes. Entre outras nomeações e prémios que arrecadou. "A Trança de Inês" é um filme para mais nomeações e prémios? 
Não faço ideia. O futuro não me pertence. Limito-me a fazer o filme que imagino com toda a energia e saber que tenho. Claro que desejo a ressonância, o eco do destinatário dos filmes que faço que é o público, os amantes de cinema, aqueles que gostam de se sentar numa sala escura e deixar-se levar. Eu sou também uma dessas pessoas. 
(fotos cedidas por António Ferreira) 

Cátia Cardoso 20150136

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Viagem Virtual pela cidade de Coimbra

Senhores passageiros, é um prazer recebê-los a bordo.
Nesta viagem irá conhecer alguns dos pontos mais importantes da cidade de Coimbra.
Coloque por favor o seu cinto e mantenha-se em silêncio.
Agradecemos a sua atenção e desejamos uma ótima viagem!






Trabalho realizado por:
Ana Francisco
Daniela Silva
João Sobral
Valentina Ardagna
Grupo 4

terça-feira, 17 de novembro de 2015

As mãos são o meu ofício

Fig.1 Exposição da Feira ao longo das ruas da Baixa de Coimbra

As mãos são a arte que fazem magia e transformam produtos comuns como a madeira, a pedra, a cortiça em objetos únicos que suscitam curiosidade a quem os observa. Assim são os artesãos, capazes de transformar pequenos materiais em grandes obras de arte. Não precisam de uma máquina, de novas tecnologias, apenas das mãos e, por vezes, de uma ferramenta, bem como uma pitada de habilidade, originalidade e graciosidade.

 A baixa da cidade de Coimbra encheu-se dos mais diversificados e artísticos artesãos. As suas pequenas grandes obras de arte encontravam-se espalhadas pelas ruas Visconde da Luz, Ferreira Borges e Largo da Portagem. Desde a produção de peças em madeira, de pedra, à produção de bonecas em cabaças e minions em cortiça. As pessoas, com os olhos postos nos trabalhos em exposição, apreciam a beleza dos mesmos, umas compram, outras apenas vêem, no entanto, são as palavras elogiosas e os sorrisos de quem passa que ficam na memória do artesão.
Por estas ruas, encontrámos uma senhora encantadora que vestia um avental muito criativo - era vermelho, com o emblemático boneco amarelo vestido de pai natal. Na sua banca, minions não faltavam. Esta artesã dedica-se desde há cinco anos à produção dos mesmos. Feitos em cortiça e forrados a eva, com uma enorme variedade e para todos os gostos, desde o futebolista, super-homem, estudante ao presépio. A ideia surgiu a partir do filme Gru - O maldisposto, “Achei-os adoráveis, muito fofos (…)”, diz entre sorrisos. O objetivo era “adaptar a um material que realmente as crianças pudessem brincar com eles sem o problema de os partir”. Segundo a própria, é um trabalho que tem uma adesão muito positiva, sendo que muitos dos clientes já são habituais pois, vêm todos os meses à espera de encontrar novas figurinhas amarelas.

Fig.2 Artesã de Minions e a sua banca

Mas não são só os minions que têm sucesso, também as bonecas feitas de cabaça dão que falar. São produzidas por duas irmãs que se dedicam a esta criação desde há dois anos. Uma delas, que produzia cabaças no seu quintal, pensou que poderia transformar aquele simples material em algo interessante, original, surgindo assim as famosas bonecas de cabaça. Atualmente dedicam-se mais à produção de bonecas fadistas que se têm revelado um êxito, são as que as pessoas mais procuram, segundo o relato das mesmas.
Fig.3 Fernando Pessoa feito numa cabaça

Caminhando um pouco mais pela calçada coninbrisense, algo nos chama a atenção, umas primorosas obras em pedra. São produto de um casal que trabalha com este material desde há muitos anos. Era inicialmente um hobbie, e, mais tarde, transformou-se em algo sério, quando decidiram mudar de vida. No entanto, “nós não pretendemos que seja um trabalho que cresça muito, não é essa a ideia. É fazermos as peças quando nos apetece, com os modelos de que gostamos. Não estamos propriamente preocupados com o tempo que demoramos, é mais o resultado, se nos agrada ou não”, menciona a esposa. Segundo o casal, a procura destas peças é alargada devido à diversificação de produtos. No entanto, há a predominância para a escolha das peças maiores, mais arrojadas, pelo menos na área de Coimbra e na Figueira da Foz.
Também não falta o gosto de trabalhar com a madeira. Destacamos um artesão atencioso que nos falou do seu talento, a produção de miniaturas. Uma ideia que surgiu pelo gosto que tinha pelas madeiras. Inicialmente começou por produzir pequenas peças, sendo que, atualmente, já produziu mais de uma centena. Estas, segundo o próprio, têm uma procura bastante razoável, dependendo do local onde vai expor os seus trabalhos e também do tipo de clientes.
Na chegada ao largo da portagem contemplamos alguém a trabalhar na sua banca, é um senhor, - com um ar trabalhador, atento, minucioso - um talentoso sapateiro que está a produzir uns tamancos, feitos em madeira, pele e tecido. Este artesão diz fazer disto um trabalho sério desde há 27 anos, no entanto, o seu primeiro contacto com esta criação foi aos seus nove anos de idade. Os tamancos portugueses já são uma invenção de família, “o meu avô fazia, o meu pai fazia e eu faço” diz o próprio.

Fig.4 Artesão de Tamancos

É na Feira de Artesanato Urbano, em Coimbra, que artesãos colocam a sua originalidade e criatividade à prova, uns já desde alguns anos, outros só agora despertaram curiosidade e tiveram ousadia para tal. Esta é uma feira que se realiza todos os segundos sábados de cada mês, desde março até dezembro, com o objetivo de contribuir para a crescente dinamização das principais artérias centrais da cidade e para uma cada vez mais ampla afirmação da vertente urbana e contemporânea do artesanato no contexto nacional. A aproximação da época natalícia constitui a possibilidade do consumidor adquirir produtos diferentes, originais que nem sempre são fáceis de encontrar nos circuitos de comércio mais comuns.
Coimbra vai para além das grandiosas universidades, lojas, montras e monumentos. Esta é uma cidade onde escoa talento, paixão e arte pelas pedras da calçada. Se tem dúvidas visite a feira de artesanato e deixe-se encantar por todas as obras de arte que lá se encontram.

Fig.5 Arte de cabaças

Fig.6 Artefactos têxteis 

Fig.7 Portagem com arte dos artefactos


 Grupo 1
Beatriz Pessoa
Bianca Matos
Igor Lopes
Laura Tadeia
Liliana Costa

domingo, 21 de dezembro de 2014

«O jazz é uma música popular e sábia»

Samy Thiébault no saxofone, Sylvain Romano no contrabaixo e Philippe Soirat na bateria 
O jazz ecoou n’“O Teatrão”, em Coimbra, com um concerto de apresentação do quinto álbum do músico francês, Samy Thiébault. Resultante de uma parceria entre a Alliance Française e o Conservatório de Música de Coimbra, o evento foi bem recebido pelo público conimbricense enchendo a plateia da sala de concertos.

A Alliance Française (AF), em parceria com o Conservatório de Música de Coimbra, trouxe uma vez mais um pouco da cultura do hexágono. Apostando no jazz com o músico Samy Thiébault, acompanhado pelo baterista Philipe Soirat e Sylvain Romano no contrabaixo, a AF conseguiu encher a sala de concertos d’”O Teatrão.” O espaço escolhido para o evento, como refere Amina Mazouza, diretora da AF, é “muito intimista” e faz “com que nos sintamos próximos dos artistas.” Para a diretora da AF, este evento foi um grande sucesso já que o organismo conseguiu “propor algo de diferente a Coimbra e que não é proposto em Lisboa, no Porto ou em outras cidades portuguesas.”


Foi num ambiente relaxado e quase familiar que o concerto começou, às 21:40. Após uma breve apresentação feita por Amina Mazouza, que explica que Samy Thiébault está a lançar este seu novo projeto pela primeira vez em Coimbra, a banda entrou em palco e deu início a uma noite de muito boa música. Com influências que flutuam entre John Coltrane e os The Doors, a música deste grupo foi apresentada ao público conimbricense em “avant-première”. E se pensar que o jazz nos remete para New Orleans e Nova Iorque, Samy Thiébault prova-nos que a Cidade das Luzes continua a dar cartas no que há de melhor de produção musical.

Samy Thiébault tem sido muito bem recebido pela crítica e pelo público em geral e tornou-se num dos saxofonistas mais influentes da sua geração. Esteve presente nos palcos mais emblemáticos do jazz na França, sem esquecer a sua atuação na mais prestigiosa sala de concertos francesa, a “Olympia”, onde partilhou o palco com Gregory Porter.

Samy Thiébault em entrevista
Este ano, presenteou-nos com mais uma prova do seu sucesso com o lançamento do seu quinto álbum: “A Feast of Friends.” Numa altura em que para Samy Thiébault o suporte em disco “está em crise” este ressalva que a afluência nos concertos é maior permitindo uma reaproximação com a essência do jazz. “Paradoxalmente, as pessoas compram menos álbuns e vão mais aos concertos”, acrescenta o músico. Referido pelos média como um género elitista, na perspetiva do saxofonista, “o jazz é uma música popular e sábia.”


Esta é a primeira tournée dos músicos a incluir Portugal, da qual Samy Thiébault guarda um sentimento muito positivo destacando a adesão por parte do público. “É raro ter um público tão atento e recetivo.” Já em tom de brincadeira, o saxofonista lamenta não falar português, no entanto, espera poder voltar para aprender.


 
Os músicos e Amina Mazouza depois do concerto



Bruna Becegatto - texto
Bruna Dias - texto
Daniela Bulário - texto
Vanessa Alves Ferreiro - texto e tradução
Zita Moura - texto e fotografia

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Galeria de Sta Clara- um pequeno mundo de cultura em Coimbra





“Quem vai, quer voltar. Quem não foi, devia ir.” Este poderia ser o lema da “Galeria Bar Santa Clara”, um dos sitios que mais reflete a qualidade e beleza da cidade de Coimbra.


Localizada na Rua António Augusto Gonçalves, esta galeria existe desde 1993 e, desde logo, mostrou preocupação na forma como se apresenta ao público: o espaço, cheio de pinturas e obras de arte que se mesclam na decoração, é também palco de workshops, sessões de cinema, concertos de bandas locais que têm oportunidade de mostrar o seu trabalho ao público, sempre com o objetivo de proporcionar uma sensação de bem-estar, ao 
mesmo tempo que procura enriquecer culturalmente quem a visita

Foto 1- Vista da esplanada da galeria



Foto 2- Tecto com uma pintura numa das salas da galeria

É com infra-estruturas equipadas e preparadas para todo o tipo de demonstrações artisticas que a galeria se deixa visitar; todos os eventos que nela decorrem são pensados e preparados de forma meticulosa por quem lá trabalha, muitos dos quais resultam de parcerias com outras associações e instituições, o que contribui para a simplificação do trabalho.

                                                                                              Foto 3- Sala dedicada à leitura

Paralelamente, existe também um bar que se complementa com as peculariedades da galeria ao incutir ambientes distintos, como a esplanada à beira-rio, onde os visitantes são convidados a apreciar a cidade, ao mesmo tempo que se deleitam com os snacks e cocktails à disposição; além de dispor ainda de uma sala de estar (ou de concertos, dependendo da ocasião).





Foto 4- Azuleijos com história 


De exposições a conversas de café, de Fernando Pessoa ao teatro, de DJ’s ao jazz, a “Galeria Bar Santa Clara” proporciona momentos de lazer, descontração e convívio, num espaço permanentemente aberto para todos os que a pretendam visitar, com intenções de desfrutar da vista e colher algumas das riquezas culturais que por lá se cruzam.


                                                                                   Foto 5- Lanches da galeria



            Foto 6- Sala de concertos                                                      Foto 7- Ambiente da galeria 


                            
                                               Foto 8- Frase de Fernando Pessoa numa parede da galeria



Por: Marlene Ribeiro, Cláudia Gomes, Eduardo Pinto e Tiago Guedes




 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

“Ser jornalista tem muito de prática e quase nada de teoria”



João Henriques entrevista José Mourinho em 2003
 João Henriques é jornalista do Diário de Coimbra, exercendo funções na delegação de Cantanhede. Estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra. Enquanto estudante, colaborou na secção de desporto do Diário As Beiras e o seu estágio curricular foi realizado na TVI.

  Depois de concluir os estudos, passou a exercer funções no Diário As Beiras na secção de desporto e posteriormente foi correspondente do jornal Correio da Manhã no distrito em Coimbra. Entre 2004 e 2007, enquanto freelancer, escreveu para o Jornal da Universidade e o Correio da Figueira. Em 2007 entrou no Diário de Coimbra como jornalista da secção de Coimbra. 



Em que altura da sua vida surgiu o interesse pelo jornalismo e o que é que lhe despertava esse interesse?

Não posso afirmar que sempre tive interesse pelo jornalismo. É verdade que sempre gostei de ler. Os jornais desportivos, que um vizinho me dava para ler quando ainda era miúdo e sempre no dia seguinte à sua publicação, despertaram em mim a vontade de, quem sabe, ser jornalista, ou, pelo menos, entrar no “mundo da bola”. Tenho de admitir que a vontade foi-se intensificando com o passar dos anos. O aproximar do final dos estudos ao nível do Ensino Secundário acabou por “empurrar-me” para esta área, que, reconheço, desperta em mim a vontade de contar histórias todos os dias.


Quais foram as suas dificuldades e os receios assim que entrou no mercado de trabalho?

Acabei por ter a felicidade de entrar no mercado de trabalho ainda estudante. Na altura, comecei por colaborar, ao fim-de-semana, na secção de Desporto do jornal Diário As Beiras, graças ao convite de um colega do curso de Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra, que também colaborava com o referido jornal. No Diário As Beiras estive cerca de dois anos como colaborador ao mesmo tempo que avançava nos estudos superiores. Depois de estagiar em Lisboa, na TVI, regressei a Coimbra para trabalhar a tempo inteiro no Diário As Beiras. Por isso, as dificuldades que podia ter sentido foram sendo esbatidas com o “aprender a fazer” que, felizmente, consegui ter no referido jornal. Quanto aos receios, é óbvio que a inexperiência traz sempre associados temores que, com o tempo, vão desaparecendo. Não há nada melhor do que aprender a trabalhar.


É difícil pôr-se em prática o que se estudou?

Claro que sim. Muito do que aprendemos nos “bancos da faculdade” não passa de pura teoria. Na prática, a maior parte das coisas acontece de outra forma e temos de saber lidar com situações que nunca aprendemos enquanto estudantes. Pelo menos no meu tempo, faltava muita prática ao curso de Comunicação. Na minha opinião, claro está, ser jornalista tem muito de prática e quase nada de teoria.


Quando pensa em jornalismo, quais são as primeiras palavras que automaticamente lhe surgem e que definem o que para si é ser jornalista?

Verdade, histórias, astúcia, gosto e investigação. Para mim, um jornalista tem que procurar sempre contar toda a verdade nas histórias que relata. Além disso, tem de ser astuto para conseguir obter as melhores informações para a melhor história, além de ter gosto pela profissão. Investigar devia fazer parte do dia-a-dia de todos os jornalistas, mas, infelizmente, ao entrarmos no mercado de trabalho, percebemos que tal não é possível.

Na sua opinião, quais as características que deve ter um futuro jornalista?

Um futuro jornalista tem de ser, como já disse anteriormente, astuto. Também tem de ser capaz de olhar e ouvir, mas sempre com o pensamento de que, quem sabe, se aqui ou ali, pode estar uma boa história, não para mim, mas, consoante os casos, para os leitores, os ouvintes ou os telespectadores. A persistência é uma das características que, na minha opinião, mais falta faz, hoje em dia, a quem quer ser “jornalista de verdade”.

Que conselhos dá a um estudante de jornalismo para que possa exercer bem a sua profissão?

Ser verdadeiro com ele próprio. Nada melhor do que acreditarmos naquilo que fazemos para exercermos bem a nossa profissão. Saber lidar com a pressão é importante numa área em que ela existe sempre. Tanto a que é imposta por nós próprios, como a que vem do exterior. Na minha opinião, um jornalista recém-entrado no mundo de trabalho - os outros também - tem de ter a capacidade de, todos os dias, procurar diferentes ângulos de abordagem da notícia. A diferença faz – a repetição é propositada - a diferença.

Durante a carreira de um jornalista, ocorrem muitas situações diferentes quase diariamente, permitindo uma aprendizagem constante. Qual foi a experiência que mais o marcou e que mais o ajudou a aprender?

Todos os dias, aprendemos com o nosso trabalho. O jornalista tem, como qualquer outra pessoa, sentimentos. No meu caso, não tenho dúvidas em afirmar que a morte, ou melhor, a vida dos que ficam e lidam com a morte de alguém querido “mexe” comigo. Há situações difíceis de contar, sobretudo quando a morte é inesperada. Com estas situações, aprendemos sempre alguma coisa, pois são momentos de dor, angústia e impotência com que temos de aprender a lidar, fazendo de nós, jornalistas e humanos, pessoas mais fortes. Não tenho vergonha de dizer que já chorei em trabalho. Há emoções a que não se resiste. Também se aprende muito com as “lutas de poder”, com as quais percebemos que a política é feita de (pouca) gente boa e (muita) outra que nem tanto.


Por: Salomé Assunção

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Porque quando alguém se ergue, toda a humanidade se levanta!

Maria Martinha Silva é Assistente Social e atualmente ocupa o cargo de Diretora técnica na Equipa de Intervenção Social ERGUE-TE da Fundação Madre Sacramento. O programa é dedicado ao apoio social de mulheres em contexto de prostituição afim de combater a violência de gênero promovendo o empowerment, a inclusão e a cidadania. Em parceria com o projeto “Estrutura de Emprego Protegido”, são oferecidas outras alternativas à prostituição.


Como o projeto ERGUE-TE surgiu e quais são os âmbitos de ação pela equipa?

A ERGUE-TE surgiu pois o Carisma das Irmãs Adoradoras é o trabalho com mulheres em contexto de prostituição desde a origem, desde o século XIX. As Irmãs Adoradoras estão em Coimbra desde 1990 e desta data à 2009 estiveram em outro projeto que pertencia à Cáritas de Suzana que era uma casa de acolhimento de mulheres com filhos ou sem filhos, provenientes de vários contextos de exclusão, principalmente prostituição. Entretanto, pensou-se a necessidade de redefinir o projeto pois foram surgindo outras respostas sociais de acolhimento, e também no âmbito de fidelidade do Carisma das Irmãs Adoradoras, criou-se um projeto com a possibilidade de maior aproximação de mulheres em situação de prostituição, assim surgiu a Equipa de Intervenção Social ERGUE-TE, pertencente a Fundação Madre Sacramento, que por sua vez, pertence às Irmãs Adoradoras. A ERGUE-TE funciona desde janeiro de 2010, possui um acordo de cooperação que foi aprovado pelo Centro Distrital de Segurança Social. A Equipa possui dois âmbitos de ação, um localizado no gabinete, no qual é feito atendimento e acompanhamento dessas mulheres a nível social, psicológico, jurídico e de saúde, e outro campo de ação no âmbito da intervenção, que consiste em uma unidade móvel que se desloca a locais conotados com a prática da prostituição.


Além do apoio social, psicológico e jurídico, quais são as outras atividades desempenhadas pela ERGUE-TE?

A finalidade de todo esse programa, de facto é oferecer outras alternativas e possibilidades de uma nova vida a essas mulheres, portanto criou-se o projeto “Estrutura de Emprego Protegido” para integrar e preparar elas para as exigências do mercado laboral, porque a maioria dessas pessoas, sobretudo, portuguesas, são mulheres com baixa escolaridade     e precisam desenvolver algumas competências para serem integradas no mercado laboral. Portanto, as mulheres que estão determinadas a abandonar a prática da prostituição são efectivadas durante um ano na “Estrutura de Emprego Protegido” e passam a trabalhar e a aprender uma profissão no âmbito da costura e dos trabalhos manuais. A partir disso, foi registrado a marca ERGUE-TE com produtos de design próprio e privilegiando a matéria-prima portuguesa.


O atendimento é destinado exclusivamente à mulheres?

Inicialmente só mulheres eram atendidas, entretanto começamos a receber contactos e pedidos de ajuda de homens nomeadamente travestis, então nós decidimos alargar a nossa população e pra além de mulheres, mulheres transexuais em contexto de prostituição, sendo que para estes a nossa intervenção é especificamente no âmbito da prevenção da saúde pois não temos qualificações para dar uma resposta efectiva, já que é uma abordagem muito específica.


Atualmente a ERGUE-TE realiza o acompanhamento de quantas mulheres?

Não há um número exato. A Equipa existe desde janeiro de 2010 e de acordo com uma base de dados criada em 2011, dessa altura até agora, já passam de mil pessoas contactadas. Com um plano de acompanhamento efectivo e delineado, atualmente temos por volta de cem pessoas contactadas e acompanhadas por nós, sendo que outras são contatos mais esporádicos, mas que não deixam de ser nossa população pois nos encontramos com elas quando vamos aos locais conotados com a prática da prostituição, elas pontualmente pedem ajuda, ou no âmbito da prevenção de DSTs ou em outras questões, portanto são ajudas mais pontuais e que não tem um plano de acompanhamento delineado com objectivos de curto ou a médio prazo.


Há um padrão ou perfil social, etário ou étnico o qual se enquadra essas mulheres atendidas pela ERGUE-TE em contexto de prostituição?

Depende um bocadinho. A nossa população atendida não possui um perfil único, até porque temos mulheres portuguesas, mas mais da metade das pessoas quem contactamos são estrangeiras, sendo que estas imigrantes tem um perfil mais específico no sentido de que estão mais isoladas socialmente porque, normalmente, o resto da família e os filhos estão no país de origem, e dependem do dinheiro que a mulher envia. Já as portuguesas, normalmente são casadas, possuem filhos e predominantemente são mulheres de mais idade.


É oferecido alguma forma de apoio às famílias e especialmente aos filhos dessas mulheres portuguesas?

Sim, nós temos essa preocupação, pois não trabalhamos só com essas mulheres em atividades de prostituição mas também com seus familiares, e se há mais membros em idade laboral, mas não trabalham, integramo-la Estrutura de Emprego Protegido. Se este membro não integrar este projeto, procuramos perceber que necessidades há no agregado familiar e procuramos fazer as devidas integrações, como encaminhar crianças para creches ou escolas ou a procura de emprego


Qual a zona de atuação da unidade móvel de apoio, e quais os profissionais neste âmbito de intervenção?

A ERGUE-TE é formada por três técnicos (Assistente Social, Psicóloga, e Educadora Social) e por um grupo de voluntários, que atuam em todo o distrito de Coimbra, portanto vamos às estradas nacionais, vamos às ruas da cidade de Coimbra, vamos também à bares e apartamentos e a todos os lugares relacionados com a prática da prostituição que saibamos que existam. Esse trabalho de aproximação é feito por uma equipa de voluntários acompanhados por um técnico.


O que é preciso para ser voluntário na Equipa ERGUE-TE? Há algum treinamento específico?

Para ser voluntário é necessário ter vontade e formação. Nós somos muito exigentes nisso, pois há muitas formas de olhar a prostituição, e nós temos uma forma de olhar que justifica a nossa foram de intervir, pois temos uma missão, uma visão e valores que nós defendemos e a pessoa que dá a cara pela instituição deve ser fiel a essa forma de olhar e ser fiel a essa forma de intervir, por isso, é necessário um ano de formação. Este ano de formação implica em reuniões mensais com várias temáticas para contextualizar os voluntários, pois é por eles que as mulheres irão ser informadas sobre questões em determinadas problemáticas, tanto no âmbito jurídico e de saúde, como também a nível de respostas sociais na comunidade.


Em qual local os produtos da marca ERGUE-TE estão disponíveis para compras? E o que são esses produtos?

Os produtos podem ser encontrados no espaço da Estrutura de Emprego Protegido, localizado na Rua da Ilha, ao pé da Sé Velha, são basicamente produtos de origem portuguesa, sobretudo à base de linho e lã de ovelha. A produção destes artigos, é pensada não somente em venda com a finalidade exclusiva de ajudara instituição. Queremos que estes produtos possuam uma utilidade a quem os compre, por isso são itens de qualidade, pois são confeccionados por essas mulheres que estão a fazer esse percurso de mudança de vida e inclusão social, portanto essas peças significam a valorização do trabalho delas e do esforço da mudança de vida.


O dia 25 de novembro é o Dia Internacional para a erradicação da violência contra as mulheres, e a ERGUE-TE marcou para este dia o lançamento de um novo produto. Pode nos dar mais informações sobre o evento?

O evento é para o lançamento de um novo produto da marca ERGUE-TE mas que é surpresa e só será possível descobrir no evento marcado para o dia 25 no Centro Universitário Manuel da Nóbrega (CUMN), perto da Praça da República, pelas 21H15. Esse é um produto também de muita qualidade, com matérias e acabamentos de excelência que assinala a valorização do trabalho destas mulheres. Acreditamos que uma das formas de erradicar a violência é promover o empowerment, portanto fazer a mulher sentir que há outros caminhos, outros horizontes e outros projetos de vida e que das mãos delas saem coisas muito bonitas, muito úteis e de valor.



Por Bruna Becegatto


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Jornalismo sem Estática

Num mundo em que a voz perde peso face ao hipertexto e à internet, o papel da rádio redefine-e a cada dia e o papel do jornalista de rádio também. Diana Craveiro, licenciada em Jornalismo pela FLUC e mestranda em Sociologia pela FEUC, colabora com a Rádio Universidade de Coimbra desde 2007, onde é uma das Directoras de Informação. Foi quem nos deu a conhecer o método de trabalho do jornalista de rádio, o que a rádio implica e a sua importância - nomeadamente na região de Coimbra, já que a RUC é a única rádio da cidade.



Bruna Becegatto
Bruna Dias
Daniela Bulário
Vanessa Alves Ferreira
Zita Moura

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Coimbra vista de dentro

Coimbra é conhecida historicamente por ser a universidade mais antiga de todo o país e a terceira mais antiga da Europa. Fundada em 1920 é também conhecida como a «cidade dos estudantes». Todos os anos milhares de jovens se mudam para Coimbra para poderem ingressar na Universidade, no entanto existem também muitos estudantes conimbricenses que frequentam esta instituição. Desta forma, esta entrevista destina-se a dar a conhecer melhor a visão de alguém que nasceu e vive em Coimbra em relação a toda vida académica antes e depois de entrar para o ensino superior. O testemunho é dado por Rafael Garcia, um jovem de 19 anos habitante de Coimbra, que frequenta o segundo ano no curso de Matemática na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).


Como é que encaravas a vida académica de Coimbra mesmo antes de seres estudante universitário?
- Sempre considerei como algo característico e tradicional da cidade, Coimbra é essencialmente conhecida pela Universidade e pela vida académica. Acho caricato ver turistas a fotografar os estudantes trajados ou até mesmo os caloiros. É interessante ver que uma situação que para mim é tão normal, para outras possa ser algo completamente novo e desconhecido. Mas ainda bem que isto acontece, pois é uma forma de promover o turismo e a cultura da minha cidade.



O que é que mudou na tua vida a partir do momento em que começaste a estudar na Universidade?
- Em primeiro lugar, foi bastante enriquecedor a nível pessoal, pois como estudante passei a ter mais noções de trabalho e passei a ser mais responsável. Em termos de vida académica, comecei a perceber melhor a importância e o peso que esta tem na vida dos estudantes em geral. Antes sentia-me como um mero «espectador». Como por exemplo, eu gostava de assistir aos cortejos mas de certa forma não conseguia sentir a sua verdadeira essência, para mim era simplesmente mais uma festa dos estudantes. Hoje, olho para um cortejo como um dos dias mais importantes de todo o meu ano, e tem muito mais valor.




Frequentaste as praxes de curso no teu ano de caloiro?
- Sim.

Como vias as praxes antes de seres um aluno universitário e como é que as vês agora?
- Para ser sincero, enquanto aluno de secundário assisti a várias praxes e não gostei muito, pareciam ser demasiado violentas. Quando entrei para a universidade, tive sérias dúvidas se iria frequentar as praxes ou não. No entanto, em poucos dias a minha opinião mudou drasticamente, percebi que a praxe era bastante engraçada e tinha como principal objetivo integrar os novos alunos. A praxe é composta por uma hierarquia, como tal os caloiros obedecem aos doutores mais velhos. Gostei bastante de ser caloiro, aliás tenho imensas saudades, no entanto, também gosto de estar na posição de doutor. É bom sentir-me responsável por alguém e poder acompanhar o seu percurso académico.



Vês Coimbra de uma melhor forma agora ou da mesma forma que vias antes de seres estudante universitário?
- Sem dúvida agora! Não só pelas pessoas que conheci mas por tudo que já vivi enquanto estudante.



Fala-se muito do peso da tradição desta cidade na vida de um estudante. Tinhas consciência disso?
- De certa forma sim. Acredito que para as pessoas que são de fora seja ainda mais especial o que vivem cá.


Para ti a Festa das Latas e a Queima das Fitas não são novidade. Antes já frequentavas estes eventos?
- A Festa das Latas não, costumava apenas ir à Queima das Fitas, porque sempre preferi ir apenas quando fosse universitário. Mas neste momento tanto uma como outra têm muito mais significado, antes eram simples festas.



Se tivesses a oportunidade de ir estudar para outro lugar aceitavas?
- Neste momento acho que não. Apesar de pensar bastante como seria a experiência de estudar e viver noutra cidade. Mas, por outro lado, penso que desta forma consigo tirar o melhor dos dois mundos, porque posso estar em casa com a minha família ao mesmo tempo que vivo e aproveito a minha vida académica e que conheço pessoas de todas as zonas do país.



O que é que sentes por seres da cidade com a Universidade mais antiga e com mais vida académica de todo o país?
- De certa forma não sinto nada de novo, porque já nasci com essa noção. Penso que os estudantes que não são de cá expressam-se mais em relação à tradição e cultura porque é algo que até aí era desconhecido para eles, é uma experiência nova e diferente. Mas como é lógico sinto-me bastante orgulhoso por ser de Coimbra.




Ana Manaia - 2013131

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A vida de uma universitária de Coimbra

Coimbra é uma cidade historicamente universitária devido à Universidade (fundada em 1920), sendo esta uma das principais escolhas dos alunos para ingressarem para o Ensino Superior. Coimbra é chamada de a “cidade dos estudantes”, onde se situa a mais antiga e maior associação de estudantes do país, a Associação Académica de Coimbra. Para além da Universidade de Coimbra, constituída por oito faculdades, existem outros institutos de Ensino Superior Público. Coimbra, como cidade universitária, desperta a importância de existir a visão de um estudante acerca do que é a cidade e a vida académica. Deste modo, a entrevista é realizada a Andreia Filipa, estudante da Universidade de Coimbra do curso de bioquímica.

Como é ser estudante de Coimbra?
- Na minha opinião, Coimbra é a verdadeira cidade dos estudantes, é uma cidade carregada de espírito académico. Ser estudante de Coimbra é um orgulho, é um modo de vida fantástico.


O que mais te fascina na vida de estudante?
- A sensação de que podemos ser tudo (risos). Talvez o facto de sentir que posso ser livre mas que tenho de ser responsável ao mesmo tempo, pois agora só eu posso dar tudo por mim.


Porque é que achas que, por vezes, os estudantes são muito criticados?
- Os estudantes exageram mas as pessoas também dramatizam bastante. Sei que existem abusos da nossa parte mas não é caso para fazerem de nós monstros. Até porque nós também fazemos Coimbra, esta é a cidade dos estudantes. Porém, compreendo as críticas que possam surgir devido ao facto de muitos estudantes não perceberem o que é a tradição e se tornarem abusivos naquilo que fazem.

Existe muita controvérsia em relação à praxe. Achas que a praxe contribuiu ou não para a vida de um estudante?
- Contribuiu muito, até porque um bom estudante tem de passar pela praxe, só assim irá sentir o grande amor à capa e batina. Sim, existe praxes abusivas mas quando não é o caso acho errado criticarem, até porque muitas vezes são pessoas que nunca frequentaram atividades praxísticas.


Que aspetos mudavas na vida de estudante?
- Acho que cada um deve viver à sua maneira, a 100% mas, por vezes, os estudantes acabam por se “perder” um pouco. Um estudante deve fazer de tudo durante o seu período académico, incluindo completar o curso e não se descurar desse grande facto. As pessoas esquecem-se que isto é uma fase das nossas vidas e, como todas as fases esta também passa. Há tempo para tudo, tanto para a diversão como para o estudo. Sempre fui apologista disso.


Sendo tu estudante da Universidade de Coimbra, como encaras os politécnicos?
- Não tenho nada contra, mas acho que se discriminam e se excluem a si próprios. Não são nem mais nem menos que nós e, por isso, deveriam ser mais ativos mas também devia haver cooperação entre ambas as partes.


Neste momento vive-se um ambiente de festa em Coimbra. O que é para ti a festa das latas?
- A latada é um momento do ano em que se sente orgulho em nós próprios, principalmente, pelos nossos afilhados que nos fazem sentir que temos feito um bom trabalho. Apesar de durante a latada haver aulas, acho que ninguém deve deixar de viver esta altura do ano ao máximo. É uma festa feita para nós, inesquecível desde o primeiro dia de serenata ao último som do estrondo do partir das barracas no parque da canção.


Na tua opinião, a latada é uma mais-valia?
- Sem qualquer dúvida, tanto a latada como a Queima das Fitas são das melhores alturas do ano. É o momento dos estudantes, somos muitos felizes nestas alturas e, por isso, é que se sente tanta nostalgia quando acaba.

O que mudarias no conceito de latada?
- Nada, para mim está muito bom assim. De certo modo, até concordo em parte terem reduzido os dias de latada, pois queima e latada são conceitos distintos.


Falta apenas um ano para acabar o curso, como irás ver a tua vida de estudante daqui a um ano?
- Com grande tristeza, nem vou ficar em mim quando sentir que tudo já acabou. Só quem vive isto ao máximo é que sabe o que custa deixar isto tudo para trás. Sei que poderei dizer “aqui fui feliz”.


És feliz como universitária de Coimbra?
- Muito, não trocaria o encanto desta cidade por outra. Ser universitário é mesmo muito bom, é a melhor época das nossas vidas. Nunca irei esquecer o que é ser estudante e tudo o que é Coimbra.

Andrea Henriques - 2013112

Mais que uma tradição, uma recordação

    A Festa das Latas e Imposição de Insígnias é a primeira festa académica de Coimbra que se realiza todos os anos em meados do mês de Outubro e tem como objetivo receber e integrar os novos estudantes na cidade.
Segundo a Associação Académica de Coimbra (AAC), o conceito da “Latada” mudou desde o século XIX, nessa altura realizava-se um cortejo para cada faculdade, em dias diferentes do mês de maio, para celebrar o fim da época de exames. Atualmente, a Latada, como é chamada, tem o seu início com a Serenata, sendo o cortejo o ponto alto da semana, onde os “caloiros” – alunos do primeiro ano - desfilam em trajes escolhidos pelos “doutores” – futuros padrinhos - que aproveitam para enviar mensagens satíricas à sociedade. Além da serenata e do cortejo existem também as Noites de Parque onde estão presentes várias bandas que preenchem os cartazes ano após ano. Esta festa é aberta a toda a comunidade estudantil e não estudantil.




DA SERENATA AO CORTEJO

    Este acontecimento varia de instituição para instituição. Segundo a tradição da ESEC - Escola Superior de Educação de Coimbra, os “caloiros” nas primeiras semanas fazem os seus pedidos de apadrinhamento aos “doutores”. Para dar início à Festas da Latas ocorre um jantar de curso na noite de Serenata, em que participam todos os “caloiros”, “doutores”, “veteranos” e ex-alunos. Nesta noite, antes do jantar, é feita uma praxe aos caloiros onde são realizadas atividades de integração, bem como jogos didáticos. No jantar cantam-se os hinos de curso e músicas alusivas à tradição Coimbrã. Posteriormente, os afilhados juntamente com os seus padrinhos seguem até à Sé Nova, onde assistirão debaixo das suas capas, à tradicional Serenata à meia-noite e um minuto.
    Na preparação para o cortejo, tanto os padrinhos como os afilhados têm um papel fulcral a desempenhar: os padrinhos compram para os seus afilhados o “Kit Caloiro”, no qual vem uma chupeta, um apito e um penico com as respetivas cores do curso/faculdade. O fato dos afilhados fica ao encargo dos padrinhos, definindo qual a personagem “encarnada” pelos seus afilhados no dia do cortejo. Os padrinhos pedem para que os seus afilhados “roubem” um nabo e adquiram um número ímpar de latas que irão levar consigo no cortejo. Não obstante, existe um hábito criado pelos estudantes que corresponde ao pedido dos “doutores” aos “caloiros” para que estes roubem um carrinho, onde levarão comida e bebida.





CORTEJO

    Eis que chega o dia mais esperado da Latada, o cortejo. Os “doutores”, durante a manhã, preparam a sua pasta com o grelo - a insígnia pessoal dos doutores do 2º ano - composto por duas fitas com as cores da escola. De seguida, os afilhados dirigem-se para casa dos seus padrinhos que os vão vestir com os seus fatos e preparar todos os detalhes para o desfile do cortejo. O cortejo inicia-se nos Arcos do Jardim e termina no rio Mondego, passando pela Praça da República, Praça Oito de Maio e Rua Ferreira Borges. No entanto, a tradição da ESEC reúne todos os estudantes na Escola que, posteriormente, irão juntos para os Arcos do Jardim. Chegados ao local onde se vai realizar o cortejo, doutores e caloiros de curso reúnem-se para conviver.
    Entre muitas brincadeiras e boa disposição, os “caloiros” vão fazendo o percurso com os seus padrinhos pelas fontes, enquanto isso, os nabos que os doutores pediram aos afilhados servem para serem trincados, simbolizando o desejo de boa sorte na vida académica. O nabo está dentro da pasta do doutor, atado pelo grelo, terminando em laço.









    No final do percurso, e já no rio Mondego, os “caloiros”, dando uso ao penico, enchem-no de água do rio e os seus padrinhos batizam-nos de forma simbólica para marcar este dia importante das suas vidas académicas. Este batismo é marcado pelas palavras proferidas pelos padrinhos aos afilhados, desejando felicidades na sua vida académica, enaltecendo a tradição de Coimbra dando as boas-vindas à cidade que será a sua casa nos próximos anos.



    Depois do batismo, a rama do nabo é atirada ao rio, estando o estudante de costas para o mesmo. Normalmente, durante esta ação simbólica os estudantes organizam-se por grupos dizendo ou cantando algo que os caracterize e em contagem decrescente atiram em conjunto as ramas ao rio, seguindo o seu caminho sem olhar para trás.



   No final do batismo, existe um jantar organizado e pago pelos afilhados, aos seus padrinhos seguindo, depois, para a tradicional Noite de Parque que conta, todos os anos, com a atuação do músico Quim Barreiros.





    Este dia é marcado pelas palavras, memórias, risos e muitas lágrimas de emoção que passam de geração em geração, repetindo-se todos os anos.


“Para tudo há um tempo, para cada estudante há um momento.” – Slogan da Queima das Fitas de Coimbra 2012


Ana Marisa Ventura
Cátia Lourenço
Jéssica Bárbara
Ricardo Lomar
Salomé Assunção