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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Da matança à "papança"


Durante o Inverno, nas regiões do interior de Portugal é comum realizar-se a matança do porco, e daí obter o belo fumeiro (carne de porco exposta ao fumo), tão apreciado por todos.
      Trás-os-Montes não é excepção, e é neste recanto do nosso país que o fumeiro, considerado uma das riquezas da gastronomia portuguesa, ganha características únicas como o cheiro e o sabor.
O fumeiro que em tempos idos servia maioritariamente para consumo próprio, é hoje uma fonte de rendimento para várias famílias que vendem os seus produtos em feiras, como por exemplo, a feira do fumeiro de Vinhais, muito conhecida a nível nacional, e noutros certames, principalmente gastronómicos.
Para que o fumeiro seja tão aclamado, requer conhecimento, que passa de geração em geração, muito trabalho e vários dias de confecção.
O trabalho começa ainda antes da matança do porco, com o arranjo das tripas que têm de ser bem lavadas com água morna, sabão, limão ou vinagre, e depois atadas.



O porco é geralmente criado pelas pessoas mas também  pode ser comprado.
            Quando é morto, é-lhe aproveitado o sangue que posteriormente vai servir para a confecção do fumeiro doce, e queimado com um maçarico para ficar livre de bactérias e pêlos, depois é cortado em partes e limpo de vísceras.



A carne é cortada em pedaços pequenos, temperada com sal, pimento, água, vinho branco e rodelas de laranja. Permanece nesta espécie de calda durante dois dias.



             As morcelas são o primeiro tipo de enchidos a ser confeccionado. Tendo como base o sangue do porco, esta espécie de “chouriça doce” é também constituída por pão, água, açúcar, canela, mel e amêndoa.
            Tradicionalmente este enchido serve de sobremesa. Come-se cozido.



            No dia posterior ao da confecção das morcelas chega a vez de conceber as famosas alheiras.
Este tipo de enchido requer bastante trabalho e tem como ingrediente base o pão, que é migado ou cortado em fatias muito pequenas e finas.
Entre outros ingredientes, é essencial juntar ao preparado várias carnes cozidas, principalmente a carne do porco que fica junto aos ossos e uma galinha, e a gordura do porco que foi derretida ao lume. 






Tal como as morcelas, também as alheiras têm de passar por uma caldeira com água a ferver.
É muito comum comer este enchido assado.



O cheirinho a carne temperada abunda pela casa, e o quentinho da lareira ajuda a tornar o ambiente mais acolhedor para se começar a encher as tripas com os bocadinhos de carne.
          Durante e após este processo, a tripa é picada para que liberte o ar e a carne fique unida.
          Este enchido tem a particularidade de pingar gotas de tempero, durante aproximadamente uma noite.

          Quando estiverem secas, as chouriças podem conservar-se dentro de potes de azeite e comerem-se cruas, assadas, ou cozidas.




             Depois de feito, todo o fumeiro é colocado em canas, e posto a secar ao calor da lareira e ao ar fresquinho das noites geladas do inverno rigoroso de Trás-os-Montes.




            Passados oito a dez dias o fumeiro está no ponto e pode começar a ser consumido.
            Bom apetite!




Todas as fotografias são da minha autoria

Foto reportagem por: Tiago Rentes

domingo, 13 de novembro de 2011

O paraíso de Trás-os-Montes

Sendo eu um transmontano de raiz, e amante da minha terra, decidi dar a conhecer o paraíso de Trás-os-Montes. Freixo deEspada à Cinta é uma pequena vila situada no extremo sul do distrito de Bragança, bem no interior transmontano.
Entre a beleza e a imponência dos montes, é em pleno parque natural do douro internacional que se encontra uma localidade cheia de história, ou não falasse eu, naquela que é considerada a vila mais manuelina de Portugal.


Visite, descubra e apaixone-se...
É pelo manuelino, ou melhor, pelos monumentos do estilo arquitectónico manuelino que aconselho a começar a visita.
Entre as ruas que me conduzem até à zona histórica vislumbra-se arte no seu estado mais puro. Janelas trabalhadas, beirais dos telhados e até as portas de algumas casas têm o seu apontamento manuelino.
Assim que chego à zona histórica, salta à vista uma praça onde a Igreja Matriz e a Torre do Galo ou do Relógio (única que resistiu à queda do castelo outrora ali existente), se distinguem de tudo o resto pela sua arquitectura e altivez. O interior da Igreja faz lembrar o Mosteiro dos Jerónimos mas em ponto pequeno. O já velhinho mas famoso freixo que deu nome a esta localidade também está lá e até tem uma espada à cinta. Merece ser visto.
Decidi subir uma vez mais ao cabeçinho, o monte onde está situado o Santuário de Nª. Sra. dos Montes Ermos (considerada a padroeira dos freixenistas). Ao longo do caminho, uma ponte românica, uma fonte, e a paisagem envolvente, roubaram alguns minutos da minha atenção.
Deslumbrante! É a palavra que me ocorre para descrever aquilo que a minha vista alcança, lá, bem no cimo do monte. Imagem digna de ser registada na máquina fotográfica e acima de tudo na nossa memória. Avista-se a vila, o rio Douro, que por estas paragens serve de fronteira entre Portugal e Espanha, o miradouro Penedo Durão e até terras de “nuestros hermanos”. As paisagens que os miradouros nos oferecem são de tal forma robustas que mais parecem telas pintadas por um grande pintor.
Um passeio de barco pelo douro é uma das muitas atracções que Freixo de Espada à Cintatem para nos brindar. Rio acima, num ambiente onde reina o silêncio, a calma e a paz, aprecia-se a fauna e a flora, e com um pouco de sorte, ainda observamos a cegonha negra no seu ninho. Nas encostas do douro, a paisagem verde, as cascatas, os pomares, e até um pinheiro solitário, tudo concorre para tornar este espaço num autêntico paraíso.

Há ainda o artesanato local, que consiste em trabalhar a seda, gesto quase único em todo o país. Desde a criação do bicho-da-seda, até à extracção, tratamento e aplicação da mesma, tudo é feito através de processos ancestrais e artesanais. Ricos e admiráveis trabalhos em seda podem ser vistos e até adquiridos na Associação para o Estudo, Defesa e Promoção do Artesanato de Freixo de Espada á Cinta (ADEPA).
Caso para dizer que aqui o bicho ainda faz trabalhar o tear.
Comer e dormir…
A gastronomia é um dos pontos fortes da região, ou não fosse esta, uma terra que vive essencialmente da agricultura.
Sopas de espargos, sopas de tomate, enchidos, doces feitos à base de amêndoa, como os CD’S ou os beijinhos de preta, e o bom vinho da região, o Montes Ermos, ganhador de prémios a nível nacional e internacional, fazem parte da ementa cá da terra.
Para terminar o dia em beleza na localidade do grande poeta Guerra Junqueiro, temos à nossa disposição as moradias da congida (junto ao rio douro) ou as típicas habitações de turismo rural, nascidas da reconstrução de casas devolutas, que hoje se enquadram muito bem na paisagem que as envolve.

Se isto não é o paraíso, o que é?

Artigo de opinião por: Tiago Rentes.R2