quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O outro lado



E quando somos confrontados por uma realidade totalmente distinta de toda aquela que conhecíamos? E quando vemos e ouvimos coisas que passam totalmente ao lado dos outros? E quando não temos mais ninguém, senão nós mesmos?

A esquizofrenia é um dos distúrbios mais
conhecidos na psiquiatria
Fonte: http://clinicatransformacional.blogspot.pt
/2011/04/esquizofrenia.html
Existem muitos assassinos silenciosos, assassinos que não se vêem. Existem outros que não passam despercebidos. Aqueles que matam por dentro, tão barulhentos na própria cabeça, contundo mais ninguém ouve.

A esquizofrenia é um dos distúrbios mais conhecidos na psiquiatria. As pessoas que desenvolvem esta doença têm alucinações, vêem coisas, ouvem vozes e acreditam que são perseguidas. A causa deste distúrbio ainda é desconhecida, sendo que pode ser desencadeada através de uma grande mudança na vida pessoal, por exemplo: perda de um familiar, divórcio ou até despedimento.

A Casa de Saúde Câmara Pestana (CSCP) está localizada na freguesia de S. Gonçalo, Funchal e foi fundada em 1925. É  o único organismo com internamento para doentes do sexo feminino do foro psiquiátrico e de saúde mental na Madeira e é gerido pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, uma Instituição Particular de Solidariedade Social, com fins de Saúde.

“Maria” (nome fictício) é uma paciente esquizofrénica na CSCP e desenvolveu a doença há cerca de 7 anos. O desenvolvimento do distúrbio coincidiu com o facto de ter sido deixada pelo marido “de quem gostava muito”. Desde então tem necessitado de medicação para controlar os sintomas da perturbação.
A família foi uma peça fundamental no internamento da paciente, visitando-a regularmente. “Eles têm sido incansáveis. Nem sei como não enlouqueceram comigo.”

Por entre todas as alucinações que tinha, “Maria” recorda da que lhe fazia sentir mais receio, tendo até medo de si própria. “As vozes diziam que me queriam matar e para me atirar de um penhasco abaixo. Havia alturas em que tinha medo de me olhar ao espelho.”, confessou.

A medicação diária e controlada levou a que a paciente encontrasse o sossego que no mundo real não tinha. “Agora ando bem, não oiço vozes, ando calma.”, revelou “Maria”. O apoio que encontrou na Casa de Saúde também foi crucial para o seu melhoramento. Para que os doentes consigam recuperar alguma da sua autonomia, a Casa de Saúde incentiva-os a realizar algumas tarefas quotidianas como abrir as portas às visitas ou trabalhar no Atelier de Arte onde podem pintar ou desenvolver trabalhos manuais.

Pelo contrário, “Fernanda”, também paciente na Casa de Saúde Câmara Pestana, é medicada contra a sua vontade, acreditando que as vozes que ouve têm um motivo de ser. “Eu sinto que não sou doente mas estou aqui.”, afirma com indignação.

“Fernanda” está internada há 6 anos mas não parece ter noção que o tempo passou, tendo por várias vezes referido que a família a virá brevemente buscar e que a levarão embora da Casa pois, na sua mente, não está doente.

A sua medicação foi ajustada pois mostra poucas melhorias em relação ao seu estado de saúde. “Não gosto da nova medicação, os meus olhos mesmo sem sono são forçados a fechar.”, murmura.

Em relação às visões, “Fernanda” vivia intensamente o que via acreditando que havia “o maldito, o diabo e os espíritos do mal” que queriam prejudicar as pessoas e que era ela quem salvava todos. “Eu agarrava nas armas e partia-as. Eles tentavam-me cortar o corpo e eu destruía-as. Mas, graças a deus, não sou doente. Sempre que isto acontecia, eu estava a trabalhar.”

“Fernanda” manifestava um grande desagrado por ter perdido as visões que a doença facultava, “eu perdi as visões e tenho pena porque podia ajudar as pessoas, mas se Deus quiser voltarei a tê-las.”

Cada caso é um caso. Enquanto uns vivem na esperança de um dia ultrapassar as adversidades causadas pela doença, outros não começam pelo primeiro passo, aceitar. São pessoas com alguns obstáculos para vencer mas como afirmou o pensador Georges Bernanos “para encontrar a esperança, é necessário ir além do desespero.”

por: Patrícia Gouveia e Ana Ferreira

*Artigo não está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

1 comentário:

  1. Muito bem escrito, adorei a temática desenvolvida no artigo pois é algo muito pouco falado.
    Parabéns às "autoras", a escrever assim vão longe!!!

    ResponderEliminar