terça-feira, 28 de outubro de 2014

“O futebol não é para meninas, mas para mulheres”





               

 Joana Maia, de 22 anos, é a única treinadora de futebol na história da Sanjoanense. A jovem, que estuda Educação Física e Desporto, no ISMAI, e que joga no Cesarense, já representou clubes como o Feirense, Leixões e AC Milan, de Guimarães. Também já vestiu a camisola da seleção de Aveiro e já foi chamada para alguns estágios da equipa nacional. Como treinadora, Joana Maia está, neste momento, à frente da equipa de benjamins B da Sanjoanense, juntamente com Hélder Duarte, mas já passou por clubes como o Feirense e o Leixões.
    
  Entrevistador - Sendo o futebol um desporto maioritariamente masculino, porquê esta modalidade?
       Joana Maia - É a minha grande paixão. Penso que desde que nasci sempre estive ligada ao futebol. O meu avô, que faleceu no mês passado, estava em Cabo Verde quando veio jogar para equipas como Benfica, Académica de Coimbra ou Feirense. Apesar de não ter tido grande contacto com ele, foi sempre uma grande influência para mim. No entanto, foi o meu pai que sempre me transmitiu e incutiu o gosto pelo futebol.
      
 E - Normalmente chega-se à carreira de treinador depois de um percurso como jogador. Porquê dar este passo tão cedo e numa modalidade que ainda tem pouca representatividade nas mulheres?
JM - Como estudo Educação Física e Desporto, achei bem começar cedo a carreira enquanto treinadora. Penso que é uma excelente experiência enquanto professora porque, acima de tudo, o que tentamos transmitir aos miúdos são valores humanos. O nosso principal valor é formar homens e depois jogadores e isso, para a minha experiência enquanto professora, pode ser bastante benéfico. Sou apaixonada pelo treino diário como treinadora, porque como atleta prefiro jogar.
     
  E - Não tendo o futebol feminino a mesma projeção que o masculino, a Joana tem alguma pretensão como jogadora ou tem os objetivos direcionados para o treino?
       JM - É verdade que o futebol feminino ainda não tem a projeção que muitas mulheres gostariam e são várias as que têm trabalhado para inverter essa situação, em particular a professora Mónica Jorge, que é atualmente a diretora do futebol feminino da Federação Portuguesa de Futebol. É de realçar também o trabalho das selecionadoras nacionais por acreditarem que esta modalidade feminina tem valor, pois em Portugal ser jogadora profissional é praticamente impossível. E se num certo tempo da minha adolescência ainda pensei em ser jogadora de futebol, neste momento, não é a minha prioridade. Já a carreira como treinadora, começa agora a ser um dos meus objetivos de vida. Sei que é muito difícil porque o futebol feminino ainda não é visto com bons olhos em todos os lados, mas já começa a ser respeitado. Acho que para isso foi importante o apuramento, em 2012, para o europeu, com as atletas de sub19 a conseguirem, pela primeira vez, colocar a modalidade numa competição internacional.
      
 E - Como se sente numa profissão que é dominada por homens?
       JM - Não noto a diferença de estar num desporto de homens. Se calhar os treinadores que trabalham comigo reparam mais nessa diferença por estarem habituados a trabalhar com homens e agora começam a aparecer mulheres de valor na modalidade.
        
E - E encontra dificuldades pelo facto de ser mulher?
       JM - Felizmente, durante a ainda minha curta carreira, nunca encontrei muitas dificuldades e sempre me respeitaram. Aliás, já tive colegas que achavam piada ao facto de trabalharem com uma mulher nesta modalidade. No entanto, durante estes quatro anos enquanto treinadora já senti, em determinados momentos, algum preconceito por parte dos pais dos atletas.
       
 E - E como ultrapassa as dificuldades com que se depara, em particular com os pais?
   JM - Felizmente, nos clubes por onde passei – Feirense, Leixões e Sanjoanense – sempre senti o apoio por parte da direção e, ao nível individual, nunca senti dificuldades com colegas de trabalho. No entanto, sei que existem treinadores que não veem com bons olhos mulheres à frente de equipas masculinas, porque acham que não têm capacidade de liderança, não sabem tanto ou começam a temer pelo seu lugar. Acho que dentro de alguns anos vamos fazer a diferença no futebol.
        
E - Considera que há discriminação com as mulheres no futebol?
     JM - Há e são longos os anos que temos de caminhar para conseguir o respeito total da sociedade, nomeadamente dos homens. A professora Mónica Jorge foi uma pessoa que ajudou o futebol feminino a sair do estigma de que as mulheres não percebem da modalidade. Costumo dizer que o futebol não é para meninas, mas para mulheres. E no futebol ao mais alto nível só podem estar grandes mulheres, porque lutam diariamente contra esse preconceito e para que se chegue à altura em que será normal ver uma mulher a dirigir uma equipa de topo, como Real Madrid, Barcelona ou o AC Milan. Quando esse dia chegar será uma vitória de todas as mulheres que lutam, diariamente, para que o futebol feminino seja reconhecido.

     
 E - Que diferenças é que acha que há entre treinar uma equipa feminina ou uma masculina?
       JM - Sempre treinei equipas masculinas porque não é muito comum os clubes apostarem na formação feminina, mas já tive uma experiência no treino feminino, há dois anos, enquanto treinadora estagiária na seleção de Aveiro, no Torneio Inter-Associações. E vendo os dois balneários, considero que é muito mais fácil e acessível trabalhar com rapazes. A união, o espírito de sacrifício e o trabalho diário nos treinos é completamente diferente. Mas acho que isso irá mudar quando o futebol feminino começar a ser encarado de forma profissional.
     
  E - Como mulher e enquanto treinadora, acha que há dificuldades acrescidas em treinar uma equipa masculina?
       JM - Se há, nunca me apercebi disso. Por onde passei sempre tive o carinho de treinadores, atletas e pais, no geral. Reparo que as mães dos jogadores têm um carinho especial por ser uma mulher a ocupar um cargo que, normalmente, é dos homens. Já os pais, apesar de respeitarem, ainda pensam que a mulher tem apenas conhecimento do que é o futebol e não têm a perceção de que podemos ser tão ou mais capazes que um homem. Já no que diz respeito aos atletas, ao longo destes quatro anos como treinadora, nunca houve qualquer falta de respeito. Acho que isso demonstra a minha liderança.
     
  E - Como é que a Joana chega à Sanjoanense?
       JM - Cheguei aqui depois de passar pelos escalões de formação do Leixões e do Feirense. No ano passado trabalhei com o Hélder Duarte no Feirense, que é uma pessoa com quem me identifico na maneira de pensar sobre futebol. Esta época foi convidado para vir para a Sanjoanense e chamou-me para vir com ele. Isso para mim foi um privilégio e, neste momento, estamos os dois à frente da equipa de benjamins B.
       
 E - Sendo a única treinadora na Sanjoanense, sente-se em igualdade com os restantes treinadores?
       JM – Sim, porque também tento transmitir uma imagem de que estou aqui para fazer o mesmo trabalho que eles. Ainda existe algum estigma no futebol feminino, mas como tentei sempre impor as minhas ideias nas equipas por onde passei, olham para mim com respeito, valor e da mesma forma.
    
   E - Tem tido o apoio da direção, em particular do futebol?
       JM - Sempre tive e tenho o apoio necessário para trabalhar e assim ajudar a Sanjoanense. Sinto que o meu dever é ajudar o clube para que evolua, como tem acontecido nos últimos anos. Sempre tive o apoio da direção e sinto que os responsáveis pelo futebol têm carinho e respeito por mim.
      
 E - Está a treinar a equipa de benjamins B. É o escalão que gostaria ou preferia estar à frente de equipas mais velhas?
       JM - Acho que é bom passar por vários escalões e de várias idades, até como forma de preparação para uma carreira como professora, porque vou encontrar turmas com várias idades. O meu objetivo é, um dia, chegar a um escalão sénior, mas sei que neste momento ainda tenho muito a aprender com os miúdos. Claro que gostaria de trabalhar ao mais alto nível enquanto profissional mas, neste momento, para a minha formação e o meu desenvolvimento enquanto treinadora, é importante passar por vários escalões.
       
 E - Como mulher, como consegue motivar um grupo de jovens masculinos num treino ou jogo de futebol?
       JM - Como um homem também o faz. Há homens com liderança, mas também há mulheres. Acho que o mais importante para motivar um grupo de jovens é saberem que o treinador quer vencer, porque eles também pensam assim.
    
   E - Acha que a Sanjoanense deveria criar uma equipa feminina?
       JM - Felizmente já tive oportunidade de ter essa conversa com o presidente do clube que me disse, e com toda a razão, que, neste momento, a Sanjoanense não tem infraestruturas para que isso seja possível. No entanto, foi com agrado que vi essa opção para o futuro da Sanjoanense e gostaria de ser um dos nomes pioneiros no futebol feminino do clube.
        
 E - Do seu ponto de vista, quais são as principais dificuldades das mulheres no futebol?
       JM - Acho que é o estigma de que o futebol não é para mulheres. Espero que isso se altere e que as mulheres incutam na modalidade a nossa maneira de pensar. Cabe-nos a nós tentar diminuir esse estigma, mostrando valor e que conseguimos fazer o mesmo que os homens. Acho que só assim as mulheres irão ser cada vez mais respeitadas na modalidade.
    
  E - Há algum nome no futebol que seja uma referência para si?
      JM - Há nomes de mulheres que me marcaram e que têm características para vingar no futebol masculino, como a professora Mara Vieira que foi minha treinadora no Feirense e no AC Milan, em Guimarães. É a pessoa que me revejo ao nível do futebol e um exemplo dentro e fora de campo. Se o José Mourinho começou a pensar futebol de outra maneira, após as aulas com o Professor Manuel Sérgio, eu também comecei a faze-lo depois de ter sido treinada pela professora Mara Vieira. Também admiro o trabalho de Isabel Osório e Liliana Davis, atuais treinadoras da Dragon Force do FC Porto e das selecionadoras nacionais Susana Cova e Marisa Gomes, que têm contribuído para o bom futuro do futebol feminino.
     
  E - Quais são os seus projetos futuros?
       JM - Quero acabar o meu curso e ser professora, mas também tenho a ambição de vir a ser treinadora de futebol profissional, apesar de reconhecer que isso é difícil. Como atleta, gostava de ter a oportunidade de vestir a camisola da seleção nacional pelo menos uma vez.
      
 E - Onde gostaria de se ver daqui a alguns anos?
       JM - Gostaria de estar no topo do futebol, à frente de algum clube europeu. Neste momento isso é um sonho, pela forma como o futebol feminino ainda é encarado, mas acho que lentamente a realidade está a mudar. Vou lutar para que isso aconteça, mesmo fora do campo, porque ser treinador não é só perceber de futebol.
       
 E - Como é que a sua mãe encara a situação de ter a filha num desporto dominado por homens?
       JM - Sempre tive o seu apoio. Pode não gostar de futebol como eu ou não perceber o porquê desta modalidade me fascinar, mas sempre respeitou esta minha opção e sempre me ajudou e apoiou quando precisei.
Ruben Tavares- 2013853


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