terça-feira, 25 de novembro de 2014

“Ser jornalista tem muito de prática e quase nada de teoria”



João Henriques entrevista José Mourinho em 2003
 João Henriques é jornalista do Diário de Coimbra, exercendo funções na delegação de Cantanhede. Estudou Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra. Enquanto estudante, colaborou na secção de desporto do Diário As Beiras e o seu estágio curricular foi realizado na TVI.

  Depois de concluir os estudos, passou a exercer funções no Diário As Beiras na secção de desporto e posteriormente foi correspondente do jornal Correio da Manhã no distrito em Coimbra. Entre 2004 e 2007, enquanto freelancer, escreveu para o Jornal da Universidade e o Correio da Figueira. Em 2007 entrou no Diário de Coimbra como jornalista da secção de Coimbra. 



Em que altura da sua vida surgiu o interesse pelo jornalismo e o que é que lhe despertava esse interesse?

Não posso afirmar que sempre tive interesse pelo jornalismo. É verdade que sempre gostei de ler. Os jornais desportivos, que um vizinho me dava para ler quando ainda era miúdo e sempre no dia seguinte à sua publicação, despertaram em mim a vontade de, quem sabe, ser jornalista, ou, pelo menos, entrar no “mundo da bola”. Tenho de admitir que a vontade foi-se intensificando com o passar dos anos. O aproximar do final dos estudos ao nível do Ensino Secundário acabou por “empurrar-me” para esta área, que, reconheço, desperta em mim a vontade de contar histórias todos os dias.


Quais foram as suas dificuldades e os receios assim que entrou no mercado de trabalho?

Acabei por ter a felicidade de entrar no mercado de trabalho ainda estudante. Na altura, comecei por colaborar, ao fim-de-semana, na secção de Desporto do jornal Diário As Beiras, graças ao convite de um colega do curso de Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra, que também colaborava com o referido jornal. No Diário As Beiras estive cerca de dois anos como colaborador ao mesmo tempo que avançava nos estudos superiores. Depois de estagiar em Lisboa, na TVI, regressei a Coimbra para trabalhar a tempo inteiro no Diário As Beiras. Por isso, as dificuldades que podia ter sentido foram sendo esbatidas com o “aprender a fazer” que, felizmente, consegui ter no referido jornal. Quanto aos receios, é óbvio que a inexperiência traz sempre associados temores que, com o tempo, vão desaparecendo. Não há nada melhor do que aprender a trabalhar.


É difícil pôr-se em prática o que se estudou?

Claro que sim. Muito do que aprendemos nos “bancos da faculdade” não passa de pura teoria. Na prática, a maior parte das coisas acontece de outra forma e temos de saber lidar com situações que nunca aprendemos enquanto estudantes. Pelo menos no meu tempo, faltava muita prática ao curso de Comunicação. Na minha opinião, claro está, ser jornalista tem muito de prática e quase nada de teoria.


Quando pensa em jornalismo, quais são as primeiras palavras que automaticamente lhe surgem e que definem o que para si é ser jornalista?

Verdade, histórias, astúcia, gosto e investigação. Para mim, um jornalista tem que procurar sempre contar toda a verdade nas histórias que relata. Além disso, tem de ser astuto para conseguir obter as melhores informações para a melhor história, além de ter gosto pela profissão. Investigar devia fazer parte do dia-a-dia de todos os jornalistas, mas, infelizmente, ao entrarmos no mercado de trabalho, percebemos que tal não é possível.

Na sua opinião, quais as características que deve ter um futuro jornalista?

Um futuro jornalista tem de ser, como já disse anteriormente, astuto. Também tem de ser capaz de olhar e ouvir, mas sempre com o pensamento de que, quem sabe, se aqui ou ali, pode estar uma boa história, não para mim, mas, consoante os casos, para os leitores, os ouvintes ou os telespectadores. A persistência é uma das características que, na minha opinião, mais falta faz, hoje em dia, a quem quer ser “jornalista de verdade”.

Que conselhos dá a um estudante de jornalismo para que possa exercer bem a sua profissão?

Ser verdadeiro com ele próprio. Nada melhor do que acreditarmos naquilo que fazemos para exercermos bem a nossa profissão. Saber lidar com a pressão é importante numa área em que ela existe sempre. Tanto a que é imposta por nós próprios, como a que vem do exterior. Na minha opinião, um jornalista recém-entrado no mundo de trabalho - os outros também - tem de ter a capacidade de, todos os dias, procurar diferentes ângulos de abordagem da notícia. A diferença faz – a repetição é propositada - a diferença.

Durante a carreira de um jornalista, ocorrem muitas situações diferentes quase diariamente, permitindo uma aprendizagem constante. Qual foi a experiência que mais o marcou e que mais o ajudou a aprender?

Todos os dias, aprendemos com o nosso trabalho. O jornalista tem, como qualquer outra pessoa, sentimentos. No meu caso, não tenho dúvidas em afirmar que a morte, ou melhor, a vida dos que ficam e lidam com a morte de alguém querido “mexe” comigo. Há situações difíceis de contar, sobretudo quando a morte é inesperada. Com estas situações, aprendemos sempre alguma coisa, pois são momentos de dor, angústia e impotência com que temos de aprender a lidar, fazendo de nós, jornalistas e humanos, pessoas mais fortes. Não tenho vergonha de dizer que já chorei em trabalho. Há emoções a que não se resiste. Também se aprende muito com as “lutas de poder”, com as quais percebemos que a política é feita de (pouca) gente boa e (muita) outra que nem tanto.


Por: Salomé Assunção

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