quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Música de Gerações

Eduardo Leandro, sócio/gerente da loja de música MUSICENTRO e organizador técnico de eventos, foi aluno da primeira “fornada” do curso de Música na Escola Superior de Educação de Coimbra (1988 – 1992).
Este apaixonado pela música, fala-nos da sua loja e do mundo comercial da sua área específica.
 
Posts de Pescada: Como surgiu esta loja?
Eduardo Leandro: Começou em 1975 com o meu pai. Na altura, a loja chamava-se 3C, que significava Centro Comercial de Coimbra. O meu pai já na altura tinha uma visão futurista (risos). Mas não era uma loja como hoje, vendia um pouco de tudo, desde livros a eletrodomésticos. Na década de 80, por influência de um amigo músico do meu pai é que surgiu a ideia de trazer um piano para venda. Esse negócio não tardou a abafar todos os outros e depois disso, e devido ao gosto do meu pai pela música, tornou-se uma loja de música tal como continua a ser.

Eduardo Leandro mostrando os seus dotes musicais

PP: Para além da venda de instrumentos, também dão aulas de música?
EL: Poderia ser, não é? Mas há sempre aquela questão de as pessoas poderem pensar que damos aulas para condicionar a venda dos instrumentos e não é isso que queremos. Comercialmente é sempre um objetivo, mas não queremos isso.

PP: Consegue ter lucro só com a venda de instrumentos?
EL: Não, claro que não. Hoje em dia a alma do negócio está nos acessórios e nos serviços que a loja fornece ao cliente. Por exemplo, nas cordas para as guitarras, no arranjo dos instrumentos e coisas do género. Só com a venda dos instrumentos é difícil manter um negócio de pé.

PP: Existem fatores que prejudicam o negócio?
EL: Claro! A crise é sempre um grave fator, não é? Mas a internet também é um concorrente sem igual. Os produtos nas lojas são provavelmente tão baratos como na internet, portanto não há necessidade de serem lá adquiridos, mas muitas pessoas preferem. Na loja há sempre a possibilidade de ver, de verificar o estado do produto, de comparar com outros e de levar para casa na hora. Pela internet, tem de se esperar que o produto chegue e mesmo assim pode chegar com defeito. E quando vem com defeito,
dirigem-se então ás lojas para as reparações, daí eu dizer-lhe que temos de ter serviços para além de instrumentos.

PP: Quais os instrumentos mais caros?
EL: O Piano é sempre dos instrumentos com maior valor. Existem pianos de 3.000 ou 4.000 euros, tal como existem os de 20.000 ou 30.000 euros. As guitarras clássicas são algo que vende sempre bem, independentemente do valor, mas é claro que também as há para todo o tipo de carteira, desde os 200 ou 300 euros até aos 2.000 ou 3.000 euros. Outro instrumento caro é a harpa, mas esse só é vendido por encomenda visto envolver muitos milhares de euros e não ter muita procura. O mais barato é de fato a flauta clássica que os miúdos tocam na escola.

PP: Há épocas em que vende mais?
EL: A época que vai de setembro a dezembro normalmente há sempre muitas vendas, sobretudo pela necessidade dos alunos do ensino básico de comprarem flautas. Nessa altura já sei que tenho de ter um stock relativamente forte porque sei que há muita procura do artigo. De resto, como um instrumento não é algo que se renove de mês a mês, vou vendendo conforme calha.

PP: Possui algumas estratégias para evitar acumular material que não se venda na loja?
EL: Sim. Tenho de estar atento às academias e cursos de música, pois se este ano souber que abrem 20 vagas para alunos de viola de arcos, por exemplo, é claro que vou ter de ter alguns aqui. O mesmo acontece com a guitarra clássica, com o violino e outros instrumentos utilizados na formação de alunos. Tenho de estar a par daquilo que é fundamental para requerer um instrumento. E com isto evito que haja instrumentos que depois não se vendem. Compor o necessário, acho essencial.

PP: Quais as pessoas que mais compram?
EL: Pessoas com interesse pela cultura musical e com estabilidade económica, essencialmente. Existem muitos pais que compram para os filhos instrumentos musicais, mesmo que tenham de se endividar com isso. Existem muitos jovens e já se nota a afluência de reformados que procuram uma nova forma de entretenimento para o seu tempo livre. Para além disto, estudantes do ensino básico – por causa das flautas – e estudantes universitários que façam parte das Tunas Académicas, para comprar os seus instrumentos.
 
PP: Acha que é importante as pessoas comprarem instrumentos em lojas próprias?
EL: Claro que sim! Acha que nos chineses ou nas Wortens são eles que escolhem o produto? Você vai lá, pergunta o que é melhor ou o que é pior e eles não sabem, porque não foram eles que escolheram o produto, apenas o vendem. Nas lojas especializadas, isso não acontece. Aqui, sou eu que escolho os instrumentos, certifico-me do estado deles e percebo do assunto. Nas lojas de música, é certo, tem-se sempre um atendimento mais especializado e provavelmente melhor. Embora se pague um pouco mais pelo produto, do que numa loja do chinês, o cliente sabe que, tem a garantia de qualidade, enquanto que noutra loja, que não seja especializada nesta área muito provavelmente não vai ter garantias nenhumas do produto depois de vendido.
 
PP: Quais as formas que encontra de contornar a crise do negócio?
EL: Para além de vender instrumentos e acessórios e de fazer arranjos, ainda sou organizador técnico de eventos. Todos os anos em Julho colaboro com a organização do Festival das Artes, que ocorre em Coimbra, alugando instrumentos para os concertos e ainda sub-alugo o espaço de uma loja a uma academia de música.
 
por: Marilena Rato e Fátima Pereira
*Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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